sábado, 10 de janeiro de 2009

Crepúsculo dos Deuses


Texto por Daniel Caetano

Crepúsculo dos Deuses é um filme daquele tipo que se impõe quando aparece na tela - há um certo peso jogado sobre nós que assistimos, o peso da tradição do cinema. Não apenas o peso da tradição que o próprio enredo em torno de Norma Desmond representa, mas a tradição que Crepúsculo dos Deuses, ao mesmo tempo, encarna e agride, a de um grande clássico do cinema. E por conta disso é preciso notar como o filme foge do padrão naturalista tradicional de forma admirável: a estrutura se baseia numa narração irônica de um protagonista falecido e, ao longo do filme e especialmente em seu final, a encenação, as atuações e ambientações são hiper-expressivas - com um olhar cruel sobre os excessos típicos de um cinema perdido no passado, um cinema que não se pretendia naturalista. A própria construção de luzes sobre a figura de Swanson/Desmond tem em todos os momentos (e sobretudo nos closes) uma força além do naturalismo e da natureza, uma força que retorna com vigor a uma outra relação visual do cinema com os personagens/estrelas. Vale aqui lembrar um dado da produção para comprovar que a opção fotográfica do filme aponta para isso, e não apenas através dos jogos e luz: os negativos originais de Crepúsculo dos Deuses eram compostos de nitrato, substância que, naquele momento, já havia sido trocada pelo acetato nas películas de cinema décadas antes - e cujos tons de cinza, naturalmente, remetem os espectadores a um cinema antigo, ainda da era muda.

Narrando uma tragédia em tons assumidamente grotescos e hiper-expressivos e carregando o peso do clássico de cinema, Crepúsculo dos Deuses, portanto, não é um filme suave.

Encará-lo na tela, no entanto, é prazer dos maiores justamente por isso: é por esta maneira de apresentar seus traços de amargura e incômodo que o filme se mantém único na carreira do realizador e na história do cinema norte-americano. Não há no longo e fabuloso percurso de Wilder nenhum outro filme que agrida de forma tão clara as bases de uma cultura cinematográfica calcada no ultra-realismo (ao contrário, Wilder foi um mestre do estilo clássico) - em nenhum outro filme seu encontraremos cena semelhante à descida final de Norma Desmond. E mesmo numa cultura tão auto-crítica quando a norte-americana é difícil encontrar outro exemplo de tragédia semelhante a este, apresentando aos nossos olhos os próprios mitos abandonados - não foi feita outra peça em qualquer arte que tenha revisitado os ídolos de uma fase dourada já na sua velhice evidentemente precoce e gagá. É preciso notar o que todos sabemos: Crepúsculo dos Deuses é especialmente pesado porque vemos Gloria Swanson e Erich Von Stroheim nos papéis de Norma Desmond e Max von Mayerling, porque o filme nos apresenta imagens de Queen Kelly, o filme de Stroheim que nunca foi terminado, porque surgem na tela figuras como Buster Keaton e mesmo Cecil B. deMille e Hedda Hopper. O filme age para que a visão grotesca ligue-se definitivamente ao mundo real - e precisa ser visto e revisto numa sala de cinema porque desde início assume-se como filme de cinema.

Dos muitos aspectos que já ganharam elogios sem conta neste filme, há um que parece ser decisivo para o filme acima de todos. Crepúsculo dos Deuses não é apenas o divertido tom auto-paródico dos diálogos e da narração em off, não é apenas uma opção coerente e forte na realização visual e sonora, não é o apuro técnico fascinante com que é feito, não é somente o retrato da decadência dos sobreviventes de uma era. Mas o filme talvez possa se definir todo na relação que estabelece com sua protagonista. A interpretação de Swanson/Desmond é responsável por trazer à tona todo o impacto que o filme tem, por ser o cerne de todo o problema que o filme pretende criar com ares trágicos - essa oposição entre um mundo vivido e um mundo mítico e sonhado.

Cada gesto, cada olhar e cada momento de silêncio de Desmond se opõe a tudo que se espera como normal, menor, cotidiano, o mesmo ocorrendo com a própria luz que incide sobre ela - os próprios personagens percebem este aspecto, esta aura que se transfere da arte para a estrela e que parece fazê-la brilhar mesmo no ocaso. É lidando e pondo em relevo este tom acima do tom que o filme encontra sua chave única, sua dissonância entre seus pares. E é descrevendo com crueldade e empatia esta dor que Crepúsculo dos Deuses sabe se fazer grande e consegue se sustentar com todo seu peso, este peso que, se lhe dá a sabida aura de clássico, também mantém este seu sabor amargo e ainda incômodo.

Alexandre Rios.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Obama e Spider-Man

Barack Obama, futuro presidente dos Estados Unidos, aparecerá junto com Homem-Aranha em uma edição da Amazing Spider-Man nº583, revista em quadrinhos do super-herói. De acordo com o USA Today, Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, disse que foi algo bem natural de se fazer, principalmente depois de saber que o novo presidente era um fã assumido do Homem-Aranha. Ele ficou sabendo disso graças a declarações de Obama que ele colecionava revistas em quadrinhos do Peter Parker. "Nós pensamos: Fantástico, temos um fã de revistinhas na Casa Branca!", disse Joe.

Após o atentado de 11 de setembro de 2001, a editora lançou uma edição especial do Aranha que trazia uma história que relatava este acontecimento do ponto de vista dele.

Uma bonita homenagem da Marvel mostrando como aquele acontecimento pegou a todos de surpresa e deixou o mundo espantado e vulnerável - inclusive heróis e vilões de ficção.

O Aranha é sempre usado pela Marvel para espelhar no universo de super-heróis dele os acontecimentos reais relevantes.

Na história criada por Zeb Wells, Todd Nauck e Frank D'Armata, o Homem-Aranha impede o Chameleon (um vilão) de tentar acabar com a cerimônia de posse de Obama. Em um certo momento da história, o Aranha-humana confunde o Joe Biden (Futuro Vice-Presidente) com o Vulture (um vilão antigo).

Esta não é a primeira vez que um presidente dos EUA aparece em uma revista em quadrinhos: Durante a Segunda Guerra Mundial, super-heróis ao comando de Fraklin D. Roosevelt perseguiram Hitler. John F. Kennedy apareceu na Action Comics nº309 em 1963, quando ele ajudou a proteger a identidade secreta de Clark Kent, o Superman.

Alexandre Rios.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mudar as palavras

Israel está novamente em guerra com os terroristas do Hamas, e não existe comediante na face da Terra que não tenha opinião a respeito. Engraçado. Faz lembrar a última vez que estive em Israel e ouvi, quase sem acreditar, um colega meu, acadêmico, que em pleno Ministério da Defesa, em Jerusalém, começou a "ensinar" os analistas do sítio sobre a melhor forma de acabarem com o conflito. Israel luta há 60 anos por reconhecimento e paz.
Mas ele, professor em Coimbra, acreditava que tinha a chave do problema. Recordo a cara dos israelenses quando ele começou o seu delírio. Uma mistura de incredulidade e compaixão.

Não vou gastar o meu latim a tentar convencer os leitores desta Folha sobre quem tem, ou não tem, razão na guerra em curso. Prefiro contar uma história.

Imaginem os leitores que, em 1967, o Brasil era atacado por três potências da América Latina. As potências desejavam destruir o país e aniquilar cada um dos brasileiros. O Brasil venceria essa guerra e, por motivos de segurança, ocupava, digamos, o Uruguai, um dos agressores derrotados.

Os anos passavam. A situação no ocupado Uruguai era intolerável: a presença brasileira no país recebia a condenação da esmagadora maioria do mundo e, além disso, a ocupação brasileira fizera despertar um grupo terrorista uruguaio que atacava indiscriminadamente civis brasileiros no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

Perante esse cenário, o Brasil chegaria à conclusão de que só existiria verdadeira paz quando os uruguaios tivessem o seu Estado, o que implicava a retirada das tropas e dos colonos brasileiros da região. Dito e feito: em 2005, o Brasil se retira do Uruguai convencido de que essa concessão é o primeiro passo para a existência de dois Estados soberanos: o Brasil e o Uruguai.

Acontece que os uruguaios não pensam da mesma forma e, chamados às urnas, eles resolvem eleger um grupo terrorista ainda mais radical do que o anterior. Um grupo terrorista que não tem como objetivo a existência de dois Estados, mas a existência de um único Estado pela eliminação total do Brasil e do seu povo.

É assim que, nos três anos seguintes à retirada, os terroristas uruguaios lançam mais de 6.000 foguetes contra o Sul do Brasil, atingindo as povoações fronteiriças e matando indiscriminadamente civis brasileiros. A morte dos brasileiros não provoca nenhuma comoção internacional.

Subitamente, surge um período de trégua, mediado por um país da América Latina interessado em promover a paz e regressar ao paradigma dos "dois Estados". O Brasil respeita a trégua de seis meses; mas o grupo terrorista uruguaio decide quebrá-la, lançando 300 mísseis, matando civis brasileiros e aterrorizando as populações do Sul.
Pergunta: o que faz o presidente do Brasil?

Esqueçam o presidente real, que pelos vistos jamais defenderia o seu povo da agressão.

Na minha história imaginária, o presidente brasileiro entenderia que era seu dever proteger os brasileiros e começaria a bombardear as posições dos terroristas uruguaios. Os bombardeios, ao contrário dos foguetes lançados pelos terroristas, não se fazem contra alvos civis - mas contra alvos terroristas. Infelizmente, os terroristas têm por hábito usar as populações civis do Uruguai como escudos humanos, o que provoca baixas civis.

Perante a resposta do Brasil, o mundo inteiro, com a exceção dos Estados Unidos, condena veementemente o Brasil e exige o fim dos ataques ao Uruguai.

Sem sucesso. O Brasil, apostado em neutralizar a estrutura terrorista uruguaia, não atende aos apelos da comunidade internacional por entender que é a sua sobrevivência que está em causa. E invade o Uruguai de forma a terminar, de um vez por todas, com a agressão de que é vítima desde que retirou voluntariamente da região em 2005.

Além disso, o Brasil também sabe que os terroristas uruguaios não estão sós; eles são treinados e financiados por uma grande potência da América Latina (a Argentina, por exemplo). A Argentina, liderada por um genocida, deseja ter capacidade nuclear para "riscar o Brasil do mapa".

Fim da história? Quase, leitores, quase. Agora, por favor, mudem os nomes. Onde está "Brasil", leiam "Israel". Onde está "Uruguai", leiam "Gaza". Onde está "Argentina", leiam "Irã". Onde está "América Latina", leiam "Oriente Médio". E tirem as suas conclusões. A ignorância tem cura. A estupidez é que não.

(João Pereira Coutinho - Folha de São Paulo)

Thales Azevedo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

E o melhor disco de 2008 é...

Em primeiro lugar, não sou expert em música. Em segundo lugar, ouvi poucos discos lançados em 2008, até porque pouca coisa interessante tem surgido nos últimos anos. Também não escutei “Chinese Democracy” e, depois de ter lido algumas críticas, acho que não perdi muita coisa. Não foi desta vez, Axl. Quem sabe daqui a 15 anos...

Mas, pelo pouco que eu ouvi e pelas novidades da música que vejo na televisão, tomada pelo hip-hop, arrisco cravar o nome do melhor disco do ano.
Oracular Spectacular. Nome legal, não? O disco também é o máximo. Formada por Andrew Vanwyngarden e Ben Goldwasser, a banda MGMT tem tudo pra ser um dos grandes nomes da música pop no futuro. Podemos dizer que o disco é uma psicodelia dançante, baseado fortemente em letras que falam sobre uma juventude rebelde e descompromissada. Como dizem alguns versos da sensacional “Time to Pretend”, talvez a melhor música do ano: “Let’s make some music, make some money, find some models for wives. I’ll move to Paris, shoot some heroin and fuck with the stars… We'll choke on our vomit and that will be the end. We were fated to pretend.”

E
Oracular Spectacular consegue manter o ritmo com muita competência. Weekend Wars, a segunda faixa do álbum, merece uma atenção especial por ser extremamente bem trabalhada. Tudo parece ser meio galático, cósmico, bem diferente do que estamos costumados a ouvir por aí. “Kids” é perfeita para tocar em discotecas – o deve tocar na América do Norte ou Europa. No Brasil? Acho pouco provável. Talvez em São Paulo, lá toca de tudo mesmo... “The Youth” e “Electric Feel” integram, junto com as outras três que eu já citei, o top 5 do disco. Mas, repito, o disco é homogêneo e muito bem produzido por Dave Fridmann, o mesmo produtor de Flaming Lips, que parece ser a banda que mais se assemelha ao MGMT, dizem os críticos.

Mas não posso esquecer das outas coisas boas que eu ouvi no ano.
Vampire Weekend fez um disco sensacional, que me fez pensar se poderia ocupar o lugar do MGMT na minha lista fajuta. Elvis Costello voltou com um bom disco, Momofuku – o inventor do miojo. E o que dizer do AC/DC com o “Black Ice” e o seu rock and roll simples e inspirador de sempre? “Day and Age”, do The Killers – minha banda preferida da década – sacramentou o amadurecimento do quinteto. O Oasis também fez um bom disco, sim senhor. Temos também o “The Age Of The Understatement”, do Last Shadow Puppets e o “Death Magnetic” do Metallica… Enfim, foi um bom para a música. Ainda esqueci da garota-prodígio Mallu Magalhães e seu folk rompedor de barreiras musicas. Brincadeirinha, hehe.

Melhores músicas:
Black Plant e Standing Next To Me (The Age Of The Understatement)
The End of The Line e The Day That Never Comes (Death Magnetic)
No Hiding Place, American Gangster Time e Turpentine (Momofuku)
Rock´n´Roll Train, Anything Goes e War Machine (Black Ice)
Oxford Comma, A-Punk, M79, Mansard Roof, Cape Cod Kwassa Kwassa e Walcott (Vampire Weekend)
Human, Spaceman, Losing Touch, Joyride (Day and Age)
Bag It Up, I´m Outta Time, The Shock Of The Lightning e To Be Where There´s Life (Dig Out Your Soul)
Time To Pretend, The Youth, Kids, Weekend Wars, Electric Feel, Pieces of What e Of Moons, Birds & Monsters (Oracular Spectacular)

Alexandre Rios

Fui roubado!

Preferiria que me tivessem tomado a carteira. No entanto, os perversos fizeram pior: levaram-me um prazer. Desses ótimos, que não são pecado nem fazem mal à saúde. Sequestraram-me (assim, sem trema), o gosto de escrever, como aprendi e me agrada, para impor-me regras que não aprendi e das quais desgosto. Proclamo-o, portanto, aos meus leitores. Queixo-me ao papa. Lamento-me diante do altar. Fui roubado, Senhor. O Réveillon de 2009 fez sumir pelos ares, como borbulha de champanha, a satisfação que me causava a tarefa cotidiana de colocar ideias (agora é assim mesmo, sem acento) no papel, usando, para isso, vocábulos com a grafia convencionada em 1943, um ano antes de ser expedida minha certidão de nascimento. Levaram-me palavras de estimação, minhas há seis décadas!

Poderíamos absorver os incômodos da nova ortografia se nos provassem que escrevíamos de modo incorreto, mas não foi isso que aconteceu. Ficou errado o que antes escrevemos certo. E doravante, se quisermos redigir com correção, teremos que nos familiarizar com outros padrões. Precisaremos nos debruçar sobre as preferências de uns poucos que, por puro deleite, decidiram que a elas deveriam submeter-nos. Quem os constituiu senhores do idioma?

Certa feita, estando na praia de Iracema, em Fortaleza, um rapaz de bicicleta passou por mim e, num safanão, arrancou-me o celular. Em reação, esgotei contra ele, aos berros, os piores adjetivos que me ocorreram. Gritei tanto palavrão, tão alto, que o sujeito quase trombou com a bicicleta numa árvore tentando olhar para trás. Naquele momento eu fiquei indignado. É o mesmíssimo sentimento que me move agora, com outras palavras, mas com igual motivação. Estou berrando este artigo e compareço aqui como quem vai à delegacia declarar-se vítima de uma pilhagem.

Retorno à demência das novidades que afetarão os hábitos ortográficos de 230 milhões de pessoas. Convenhamos! Seria perfeitamente aceitável o incômodo se, por exemplo, variações fonéticas ocorridas ao longo dos anos tivessem posto a linguagem escrita em desacordo com a falada. Mas isso, onde aconteceu, não está contemplado na reforma. Também seria aceitável se a grafia em vigor até o dia 31 estivesse eivada de irracionalidade, constituindo-se em embaraço para a alfabetização e para o ensino do idioma. Mas não. Bem ao contrário. Imagine, leitor, crianças que estejam cursando as primeiras séries do fundamental. Ano passado aprenderam de um jeito, agora terão que desaprender e voltar a aprender. “Mas vem cá, ‘psora’ – dirão elas –, vocês não se entendem?” Pois quanto mais me empenho em entender, mais aumenta minha irritação, compartilhada por inúmeras pessoas que me informam sua decisão de continuar escrevendo do mesmo jeito. Invejo-as, mas estou profissionalmente impedido de acompanhá-las nessa operação-padrão.

“Cui prodest?”, perguntariam os criminalistas se estimulados a investigar as motivações da “disgramada” (eis aí uma palavra que deveria entrar para o dicionário) reforma ortográfica. “A quem aproveita” o acontecimento? Ontem, enquanto um programa de televisão mostrava editoras de livros didáticos rodando exemplares com a nova ortografia, discerni alguns beneficiários. Pois que se regurgitem nos ganhos. Aliás, neste Natal, entre os presentes que recebi, estava um dicionário com a nova ortografia. Tenho 18 e preciso de um novo. Eu mereço? Não, ninguém merece.

(Percival Puggina - Zero Hora)

Thales Azevedo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O medo e David Lynch

Desde pequeno me interesso por filmes de terror. Lembro-me de ir à locadora com meu pai e ficar olhando com grande curiosidade todos aqueles filmes horripilantes em prateleiras mais isoladas. Aluguei poucos nessa idade, até porque meus pais não gostavam muito da idéia dos filhos assistirem a esse tipo de filme. Um dia peguei “O Iluminado”, versão de 1997, que marcou minha infância, particularmente. Foram três horas de pura tensão para um garoto de oito ou nove anos. Havia uma cena em que aparecia uma mulher assustadora na banheira, em um dos quartos do hotel amaldiçoado em que Jack Torrance vai zelar com a família. Até hoje me lembro dessa cena e da sensação de terror que ela provocou em mim. Desde então, poucas vezes consegui me assustar com filmes de suspense ou terror, ainda mais nos últimos anos, com os efeitos especiais sendo inseridos nesse tipo de filme, deixando tudo muito artificial e sem graça. Porém, aos 16 anos voltei a ficar com medo graças a uma película. O filme “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, talvez não seja terror nem suspense. Ou talvez seja as duas coisas juntas, dentro de um drama intenso e, principalmente, surreal. Passei uma semana pensando naquele filme, tentando decifrar todos os mistérios levantados e me questionando como “o sentir” às vezes é mais importante do que “o entender”.

Aliás, esse é o cara que me faz sentir medo: David Lynch. Muitos devem sentir o mesmo quando vêem alguns dos seus filmes. É impressionante a sua mente insana. Também é impressionante como ele consegue, através de muita técnica, inserir-nos nas histórias bizarras e surreais, mesmo sendo saber se estamos caminhando com nossos próprios pés ou se estamos sendo carregados. Em “Cidade dos Sonhos” não tive escolha. O filme me prendeu completamente, só pude escapar quando os créditos apareceram na tela. Ainda bem.

Um exemplo de como o David Lynch é mestre em nos assustar pode ser encontrado logo no início deste filme, na cena em que o mendigo aparece para um homem perturbado, que tinha sonhado com uma situação especial nas noites anteriores, que culminava com a aparição do ser assustador em questão. Na cena, o tal homem conversa com outro pela manhã em um bar. O primeiro narra seu sonho e pede para o outro, que também estava no sonho, para que o acompanhasse para a parte externa ao estabelecimento, porque ele precisava saber se existia mesmo o mendigo responsável pelas suas angústias. À medida que os dois avançam, a trilha intensa de Angelo Badalamenti ganha força e, neste momento, todos sabemos que o mendigo vai aparecer de qualquer jeito, sendo questão de tempo para isso. O susto, porém, é inevitável. E é tão forte que nos pega de surpresa, apesar de esperarmos a aparição. No final das contas, o homem angustiado não agüenta e morre. O coração dele parou; o meu batia forte.

O que dizer, também, da cena de “Estrada Perdida” em que o rosto da mulher do protagonista Fred Madison se transforma no rosto do Homem Misterioso logo após o casal consumar um ato sexual? Ou, ainda neste filme, quando o mesmo Homem Misterioso conversa com o protagonista em dois locais diferentes ao mesmo tempo: cara a cara, no salão de uma festa, e ao telefone, acompanhado de uma risada assustadora, que logo determina os rumos bizarros que a história vai levar?

Ontem à noite vi o mediano “Império dos Sonhos”. Neste filme, o egoísmo de David Lynch, massageando todo o seu ego, transforma um filme com grande potencial em um grande recorte sem sentido, o que parece ser comum nos seus filmes, mas aqui toma proporções exageradas, o que prejudica a análise do longa. O filme dura três horas, que passam rápido, convenhamos, mas desnecessariamente. No final das contas, parece que muitas cenas são descartáveis e, por conta disso, não conseguiram, pelo menos comigo, prender-me no grande pesadelo da protagonista, interpretada por Laura Dern. O filme é tenso e nos garante bons sustos, como a face desfigurada da protagonista, que pode ser vista neste post. Aliás, penso que o Lynch possa estar realizando uma trilogia sobre Hollywood, de como ela pode ser gloriosa ou perversa e como isso interfere nas vidas angustiantes dos personagens. “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” podem ser encarados como dois filmes com essa temática. Algo como um “Crepúsculo dos Deuses” mais surreal e moderno.

Eu sonho pouco. Certa vez conversei com uma amiga sobre isso. Falei com ela que gostaria de ter mais pesadelos. Ela se assustou, disse que tinha com certa freqüência e odiava, e concluiu que eu estava louco. Eu disse a ela que o bom de ter pesadelos é que acordamos e nos livramos de toda aquela angústia tensa. Tudo é irreal. Não deixa de ser um entretenimento, ora bolas. No final das contas, a vida parece perfeita porque tudo aquilo ruim desaparece com um simples abrir de olhos. É por isso que eu gosto do David Lynch, porque ele cria sonhos, o que é algo mágico. Como disse a crítica do "New York Times" recentemente: "Há poucos lugares no cinema tão assustadores para se ficar quanto a cabeça de David Lynch". E eu concluo dizendo que assistir a seus filmes é como sonhar com os olhos bem abertos.

Alexandre Rios

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Touro Indomável

Robert De Niro é um dos maiores atores da história do cinema. O que dizer do seu papel mais importante, então? O que eu, um mero cinéfilo iniciante, posso dizer é que a interpretação do pugilista Jake La Motta por De Niro é, simplesmente, coisa de mestre, que lhe rendeu um Oscar mais do que merecido. Toda a fúria animalesca de Jake La Motta chega até nós da forma mais crua possível, criando uma das personalidades mais inesquecíveis já retratadas. Um sujeito bruto, mau caráter, desagradável, arrogante e paranóico. Há, porém, uma grande dose de ambigüidade nas suas atitudes, resultado, talvez, do fato de ele ser mais um incompreendido no mundo. Jake La Motta é mais complexo do que seus músculos podem aparentar.

E essa complexidade se confunde com Martin Scorsese na época em que filmava o filme. Ele mesmo já revelou que via muito de La Motta no seu próprio estado de espírito, decorrente do fracasso do seu último filme “New York, New York”, do seu vício em cocaína e por problemas no casamento. Aliás, é incrível como os idealizadores, principalmente na arte, fazem seus trabalhos mais profundos quando estão atolados em problemas e aflições.

A história de “Touro Indomável” foi adaptada da autobiografia de La Motta, campeão invicto dos pesos-médios na década de 1940, biografia marcada pela ascensão e a decadência fulminante provocada, como já disse antes, pelo seu temperamento explosivo. Quando penso nisso, uma cena vem na minha cabeça: La Motta e sua primeira esposa discutindo. Ele estava ansioso para comer um pedaço de carne, ela dizia que ainda não estava completamente pronto, que precisava fritar mais. Ele reclama das cenouras - ”Chama isso de cenouras?”. De tanto insistir, a esposa coloca com todo o desgosto do mundo o pedaço de bife no prato do pugilista reclamão. Ele não gosta - é uma falta de respeito, ora bolas – e, então, vira a mesa, deixando quebrar tudo que estava em cima e parte pra cima da mulher ainda mais agressivo. Ela se tranca no quarto e, por coincidência, seu irmão Joey, interpretado soberbamente por Joe Pesci, chega a sua casa, tomada por gritos. Jake ouve um dos seus vizinhos berrando “O que está acontecendo, animais?!”. Ele vira pro irmão e fala “O filho da puta me chamou de animal.” Logo depois, ele solta “Eu vou comer teu cão no almoço, vagabundo!”. É uma cena hilária e caótica, que representa bem a personalidade de La Motta.

Tecnicamente, o filme é perfeito. A fotografia em preto-e-branco é magistral. Além disso, somos contemplados com a competência de sempre de Scorsese, utilizando com mais freqüência neste filme ângulos poucos usuais, ainda mais claras nas cenas de lutas no ringue. O filme é repleto de cortes rápidos, o que torna ainda mais forte a sensação de levar um verdadeiro soco no estômago, um soco de verdade, forte como os de Jake La Motta. Aliás, o filme recebeu um Oscar para Montagem, merecidíssimo. Deveria receber ainda, no mínimo, os prêmios de Melhor Filme e Direção, mas nem sempre a Academia é justa, como a História tem provado. Hoje, “Touro Indomável” é considerado o melhor filme da década de 80 e um dos melhores de todos os tempos.

Voltando ao De Niro, devo lembrar que o ator engordou 30 quilos para interpretar os anos de decadência do boxeador, entregando-se completamente ao papel da sua vida. No final do filme, por exemplo, podemos ver uma das mais belas cenas do filme, uma homenagem a Marlon Brando, em “Sindicato de Ladrões”. É mais ou menos assim: La Motta se preparando para sua apresentação “Uma noite com Jake La Motta”, fala consigo mesmo:

-... Lembram-se da cena no carro com o seu irmão Charlie? Era assim... Não foi ele, Charlie. Foi você. Lembra de quando disse 'esta não é a sua noite'? “Vamos ganhar o dinheiro das apostas no Wilson. Esta não é a sua noite”. A minha noite. Podia ter acabado com o Wilson. E o que aconteceu? Ele ganhou o título. E eu um bilhete só de ida para a decadência. Depois disso já não prestei para nada, Charlie. Depois de se chegar ao topo, a tendência é sempre descer. Foi você, Charlie. Você era o meu irmão. Devia ter cuidado de mim, só um pouquinho. Devia ter cuidado de mim... Ao invés de me fazer perder de propósito por migalhas. Não compreende.
Eu podia ter tido categoria. Podia ter sido um pugilista. Podia ter sido alguém, em vez do vagabundo que sou hoje. Encaremos a realidade. Foi você, Charlie. Foi você.

Alexandre Rios.