
Se você gosta de Lost e não vai ver os episódios agora, recomendo que não leia os posts por causa dos spoilers (deixem para ler após assistir aos episódios).
Até lá!
Eduardo Vasconcelos.

[...] Há dias assim: lemos o que lemos e sentimos que o dia está ganho. Arriscar é perder. Ou, como diria um célebre professor de Oxford, «mudar para quê, se as coisas já estão tão más?» Fico como estou. E fico bem. Só Deus sabe como eu fico bem.
DE QUE NOS FALA Paul Johnson? Ah!, de que nos fala Paul Johnson... Da arte da rudeza. Da aristocrática arte da rudeza. Uma arte definitivamente perdida numa cultura plebeia e vulgar. Não confundam rudeza com ordinarice. A rudeza é tudo, excepto ordinarice. A rudeza é insolência. É brutalidade. Não, não é brutalidade; é mais do que brutalidade: é malícia extrema, perversidade diabólica, sofisticação pura. Ao contrário do insulto reles, típico de selvagens e vagabundos, não é qualquer um que exerce a rudeza. A rudeza exige inteligência, elegância e um ethos aristocrático que uma sociedade radicalmente demótica não permite nem premeia. Paul Johnson cita exemplos. Leio os nomes e sinto, com angústia e tristeza, a irremediável pobreza do mundo em que vivemos. Winston Churchill e seu filho Randolph. Bernard Shaw. Disraeli. E o grande, grande, grande Evelyn Waugh. O meu coração encolhe. Meu Deus: ainda haverá gente a ler Evelyn Waugh? [...]
A ARTE DA RUDEZA é insulto. Mas não é apenas insulto. É um insulto perverso, insolente e demencialmente elevado. «Winston, você não passa de um bêbedo», diz Lady Astor a Churchill numa festa social. E Churchill, sem perder a compostura, responde: «E você, minha querida, é feia. Mas amanhã eu já estarei sóbrio».
O MESMO Churchill, na Câmara dos Comuns, confrontado com as críticas de uma parlamentar inflamada: «Se eu fosse sua mulher, punha veneno no seu chá». E Churchill, sem perder a compostura, responde: «E se eu fosse seu marido, bebia-o».
AGORA tracem as diferenças. A nossa vida social, vendida pelas revistas da paróquia, pinga vulgaridade. As elites de um país definem esse país? Pois bem: as nossas elites mais visíveis são compostas por jogadores de futebol, apresentadores televisivos e concorrentes do Big Brother. Um cortejo grotesco, que diz tudo sobre Portugal. As frases desta gente são deprimentes e vulgares. As fronhas são deprimentes e vulgares. Os amores são deprimentes e vulgares. As casas são deprimentes e vulgares. Os sentimentos são deprimentes e vulgares. As férias, invariavelmente no Algarve, são deprimentes e vulgares. Os gostos são deprimentes e vulgares. As opiniões são deprimentes e vulgares. A roupa é deprimente e vulgar. A educação é deprimente e vulgar. Tudo é deprimente e vulgar porque tudo surge infectado pelo vírus deprimente e vulgar da classe média arrivista e endinheirada, amante do exibicionismo saloio ou, então, da moderação pacóvia, obsessivamente preocupada com o decoro, a imagem, as aparências. [...]
NÃO SE PENSE que a arte da rudeza pode existir sem humanidade. Pelo contrário: só pessoas invulgarmente humanas podem ser invulgarmente rudes. Serge Gainsbourg, outro patife nobre, disse um dia a um jovem cantor em ascensão: «Provoca, provoca sempre. Mas nunca deixes de ser humano». A rudeza é humanidade em estado puro. Puro e duro. Quando Evelyn Waugh soube que o seu amigo Randolph Churchill fora submetido a uma operação cirúrgica para a remoção de um pulmão, Waugh comentou: «Não acham a medicina moderna fascinante? Os médicos prescrutaram todo o corpo de Randolph e resolveram retirar-lhe a única parte que não era maligna». Delicioso Evelyn. Patifório Evelyn. O mesmo Evelyn que, semanas depois, ao encontrar o seu amigo em dolorosa convalescença, não hesitou em abraçá-lo, com as lágrimas nos olhos. [...]
Filhos, não obedeçam sempre aos vossos pais. Pais, não queiram ser como os vossos filhos. Rapazes, aprendam a abusar. Riam muito. Chorem ainda mais. Provoquem. Excedam-se. Sejam inteligentes. Sejam elegantes. Sejam nobres. E, puta que pariu, sejam rudes e humanos.
Thales Azevedo.
Quando pensamos em serial killer no cinema, logo nos vêm à mente o personagem da vida de Anthony Hopkins, Hannibal Lecter. Mesmo aqueles que nunca viram “O Silêncio dos Inocentes” conhecem a figura marcante de um dos ícones da cultura cinematográfica americana. O doutor Lecter é quase um gentleman. Culto, fala sem pressa e mede bem suas palavras, como se estivesse dissecando uma das suas vítimas, aprecia música clássica e uma boa culinária – no seu caso, ele prefere carne humana. Não é à toa que ele é conhecido como “Hannibal, the Cannibal”, dentro do meio policial. E é de lá que emerge a personagem de Jodie Foster – outra vez, a personagem da vida – Clarice Starling. Ela precisa do conhecimento maligno – um bom adjetivo, sem dúvidas – de Hannibal para descobrir onde se encontra o serial killer “do momento” conhecido como “Buffalo Bill”. Na tentativa de obter informações de Lecter, Clarice entra numa jornada de autoconhecimento, que vai determinar para sempre sua vida.
Coringa – “Come on, I want you to do it, I want you to do it. Come on, hit me. Hit me!” (Batman – The Dark Knight)
O Coringa é, como ele próprio se define, um agente do caos. Um ser sem passado (e que, por isso mesmo, gosta de contar diversas histórias sobre como adquiriu as suas cicatrizes na boca) e que está no mundo apenas para ver o circo pegar fogo. Toda sua loucura e imprevisibilidade é realçada ainda mais pela atuação magistral de Heath Ledger, que conseguiu pegar um vilão já consagrado das histórias em quadrinhos do Batman e elevá-lo a um patamar superior, transformando-o num dos personagens mais amedrontadores e fascinantes vistos no cinema. Aí, eu lhe pergunto : “Why so serious?”
Frank Booth, interpretado por Dennis Hopper, talvez seja o vilão mais bizarro desta lista. Afinal, ele é um maníaco sexual que praticamente escraviza a protagonista do filme, Dorothy Valles , obrigando-a a realizar seus desejos carnais mais obscuros sem que ela olhe para o rosto dele – “Don´t you fucking look at me!” -, utilizando muitas vezes uma máscara de nebulizador aterrorizante. O personagem representa algo completamente oposto ao aparente clima de normalidade de uma cidadezinha chamada Lumberton, no interior dos Estados Unidos, que confronta diretamente com o protagonista/herói da história, o bom-moço Jeffrey Beaumnont. Frank Boot representa o que há de mais controverso na personalidade humana, dentro de um sub-mundo bizarro e cruel. E de bizarrice o diretor David Lynch entende como poucos...
A representação da progressiva degeneração mental de um homem trancafiado, a trabalho, com sua mulher e um pequeno filho com dons sobrenaturais em um hotel coberto de gelo, isolado de qualquer vestígio de civilização, dominado por forças misteriosas. É Jack Nicholson, com sua espontânea e brilhante capacidade de incorporar a esquizofrenia, ao lado do gênio absoluto, conhecido por perfeccionismos e peculiaridades, Stanley Kubrick, em O Iluminado. Delírios repletos de paranormalidade entram em cena, com toques missionários, sede de violência e ele, o machado, nesse que é um dos grandes clássicos do terror.
O reverendo Harry Powell – interpretado soberbamente por Robert Mitchum - é, sem dúvidas, um dos vilões mais clássicos da história do cinema. O que dizer da sua famosa apresentação em que ele confronta os lados do Ódio e Amor escritos nos seus dedos – HATE na mão esquerda e LOVE na mão direita -, “lutando” uma mão contra a outra? Harry Powell, com muito carisma, ensina a todos como um homem de religião devota: “Agora vejam e eu lhes mostro a história da vida: estes dedos estão sempre em guerra e lutando uns contra os outros. Agora vejam-nos...O Ódio da mão esquerda lutando, e parece que o Amor está perdido... Mas esperem! Ora essa, o Amor está vencendo! Sim, senhor, o Amor venceu!”
Darth Vader é o vilão mais pop do cinema e um dos melhores elementos de Star Wars (juntamente com o Han Solo de Harrison Ford); ele é tudo aquilo que um vilão espera ser e dificilmente conseguirá. A transformação de Anakin Skywalker no Lorde Sith é algo fascinante de ser acompanhado ao longo dos filmes, mostrando bem de onde vem toda a sua maldade. Sua presença na tela é impressionante, com a voz metálica e pausada, sua respiração característica e uma armadura preta imponente, sendo impossível o telespectador olhar para outra coisa quando ele aparece em cena. Além disso, ele é responsável por uma das cenas antológicas do cinema, ao revelar que é o pai de Luke Skywalker no final de “Star Wars Episódio V : O Império Contra-Ataca” (o melhor filme da série, diga-se de passagem).
Para alguns, ele é um vilão. Para outros, uma espécie de anti-herói. O que parece ser consenso é que Alex de Large é uma das figuras mais impressionantes que o cinema já ofereceu. Um fenômeno pop. Um fruto do caos moderno previsto por Anthony Burgess e adaptado para as telas pelo gênio Stanley Kubrick. Como o Coringa de Batman – The Dark Knight -, Alex é um exímio causador do caos. Por que ele faz isso? Pra se divertir, claro! A ultraviolência pregada por Alex causa sensações diversas, não sabemos se rimos ou choramos de raiva, não temos certeza se amamos o personagem ou se sentimos por ele desprezo. No final das contas, sentimos um pouco de tudo isso, o que torna o personagem absolutamente fascinante. Com as memoráveis músicas de Beethoven nos deliciamos com as cenas fantásticas de Laranja Mecânica, presenciando a jornada de Alex em uma sociedade decadente nesse polêmico filme que é obrigatório para todo bom cinéfilo.
Anthony Perkins é o ator de um papel só. Porém, o único papel grandioso que ele fez, é o que o fará ser lembrado por gerações de cinéfilos: o de Norman Bates, o psicótico e frio atendente de hotel do filme “Psicose” de Alfred Hitchcock. Não fosse pela atuação magistral de Perkins e pela direção brilhante do “mestre do suspense”, Psicose não seria metade do que é hoje. O personagem de Norman Bates é tratado de forma surpreendente pelo roteiro bem construído, um homem carismático e que aos poucos nos revela a sua verdadeira natureza (convenhamos : um cara que mata suas vítimas vestido igual à sua mãe não é algo que se vê todo dia no cinema). A cena do banheiro é uma das mais famosas do cinema e já foi imitada em diversas outras produções. Sem dúvidas, Norman Bates é um vilão fabuloso, pertencente a um dos melhores filmes de Hithcock.
Eve é, como diz um dos personagens de A Malvada, “uma garota de inúmeras qualidades”. Ela é meiga, batalhadora, educada, atenciosa, humilde... Ou melhor, aparentar ser. Eve, interpretada por Anne Baxter, usa uma máscara. No fundo, ela é o tipo de garota (a única vilã da lista, diga-se de passagem) que faz de tudo para conseguir o que quer, mesmo que para isso tenha que arruinar a carreira da atriz que ela mais idolatra, Margo Channing, interpretada pela lendária Bette Davis. O contexto do filme é o teatro, mostrando de forma ácida, basicamente, os bastidores de todo um ambiente cercado por interesses e disputas de ego. A transformação de Eve no filme é gradual, de boa-moça a vilã definitiva. Na fase final da transformação de Eve, já prenunciada com Margo na frase mais clássica do filme: “Apertem os cintos, será uma noite turbulenta!”, temos medo quando o monstro interior de Eve vem à tona. No final das contas, concluímos que nem sempre as pessoas são o que aparentam ser.
Catorze anos dentro das grades proporcionaram forças físicas e mentais, alavancaram a psicopatia e alimentaram um brutal desejo de vingança em Max Cady, da refilmagem realizada por Martin Scorsese de Cabo do Medo. Enquanto ocupa-se em se tornar letrado e indestrutível, o vilão descobre que seu advogado não usou os argumentos que poderia para amenizar a sua punição e resolve persegui-lo obsessivamente depois de livre, atingi-lo de todas as formas possíveis, promovendo o caos em sua casa, seduzindo a sua filha adolescente, dominando mecanismos judiciais para se blindar. Não há diálogo ou possibilidade de acordo, não há interesse em extorsão, não há nada que o faça parar. É um homem guiado pela ira, a proclamar o terror como único objetivo de vida.