quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

LOST - 5ª temporada


A partir de amanhã, estarei fazendo as resenhas de todos os episódios da quinta temporada de Lost. Assim que eu baixar os episódios na internet e assisti-los, postarei o que de mais interessante aconteceu em cada episódio e a nota de cada um.
Se você gosta de Lost e não vai ver os episódios agora, recomendo que não leia os posts por causa dos spoilers (deixem para ler após assistir aos episódios).

Até lá!

Eduardo Vasconcelos.

Meu nome não é Johnny - Duas cenas engraçadas

Duas das cenas mais engraçadas que eu vi ano passado foram do filme brasileiro "Meu nome não é Johnny". Se você não viu o filme ainda, pode ver as cenas sem problemas pois elas não entregam nada de muito importante sobre o filme. E, se você já viu o filme, reveja essas duas pérolas, ambas protagonizadas pelo presidiário Alcides.







Eduardo Vasconcelos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O clássico Battletoads!



"Battletoads" é um dos games mais difíceis que eu já joguei e, sem dúvidas, um dos mais difíceis já lançados para consoles. Nesse vídeo que eu postei, um cara conseguiu passar de uma das fases mais hardcores do game, o windtunnel (percebam que a velocidade dos obstáculos no final da fase é absurda!), um feito para poucos gamers, diga-se de passagem.
O jogo, um verdadeiro clássico da pancadaria, foi lançado em 1991 pela empresa Tradewest (sendo desenvolvido pela Rare) e popularizado principalmente em duas plataformas : MegaDrive e SNES. O enredo gira em torno de dois sapos mutantes adolescentes, Rash e Zitz, que devem salvar seu irmão Pimple e a Princesa Angelica da malvada Dark Queen, líder do planeta Ragnarok, com a ajuda do Professor T. Bird e sua nave espacial, The Vulture.
A jogabilidade é o tradicional 2D "beat-em-up" em que o jogador avança derrotando inimigos e obstáculos, a exemplo do também clássico Streets of Rage (game que eu farei uma análise em outra oportunidade). O game ficou famoso não só pela sua dificuldade elevada mas também pelo humor visual (os golpes finais dos Toads são bastante engraçados), pelos gráficos avançados para a época e pela ótima trilha sonora.
Em contraste com muitos jogos, que se tornam gradualmente mais difíceis, a terceira fase de "Battletoads" apresenta um grande aumento de dificuldade ( a já citada fase da corrida ou o windtunnel) Para agravar este problema, "Battletoads" dá ao jogador limitados continues ao ser derrotado (muitos outros jogos deste porte dão ilimitadas chances), e não tem password para salvar a posição do jogador. Apenas os mais dedicados jogadores chegam até a metade deste jogo.
Dois jogadores cooperando um com o outro geralmente terminam um jogo mais facilmente, mas "Battletoads" se torna mais difícil desta maneira, principalmente nas fases de corrida. Se um dos jogadores colidir com um obstáculo durante a corrida, ambos voltam ao início da fase, reiniciando tudo.
Além do jogo de 1991, foi lançada em 1993 uma versão chamada "Battletoads & Double Dragon", um crossover entre os sapos e os personagens da série "Double Dragon", sendo mantidas várias das características do jogo original.
Esse grande clássico dos games é recomendado apenas para os jogadores mais experientes e que tenham bastante tempo e paciência para passar várias horas jogando e se aperfeiçoando nas fases dificílimas. Senão, meu amigo, será game over na certa!

Eduardo Vasconcelos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Frank Sinatra e Rita Hayworth - The Lady Is a Tramp


Thales Azevedo.

A arte da rudeza

[...] Há dias assim: lemos o que lemos e sentimos que o dia está ganho. Arriscar é perder. Ou, como diria um célebre professor de Oxford, «mudar para quê, se as coisas já estão tão más?» Fico como estou. E fico bem. Só Deus sabe como eu fico bem.

DE QUE NOS FALA Paul Johnson? Ah!, de que nos fala Paul Johnson... Da arte da rudeza. Da aristocrática arte da rudeza. Uma arte definitivamente perdida numa cultura plebeia e vulgar. Não confundam rudeza com ordinarice. A rudeza é tudo, excepto ordinarice. A rudeza é insolência. É brutalidade. Não, não é brutalidade; é mais do que brutalidade: é malícia extrema, perversidade diabólica, sofisticação pura. Ao contrário do insulto reles, típico de selvagens e vagabundos, não é qualquer um que exerce a rudeza. A rudeza exige inteligência, elegância e um ethos aristocrático que uma sociedade radicalmente demótica não permite nem premeia. Paul Johnson cita exemplos. Leio os nomes e sinto, com angústia e tristeza, a irremediável pobreza do mundo em que vivemos. Winston Churchill e seu filho Randolph. Bernard Shaw. Disraeli. E o grande, grande, grande Evelyn Waugh. O meu coração encolhe. Meu Deus: ainda haverá gente a ler Evelyn Waugh? [...]

A ARTE DA RUDEZA é insulto. Mas não é apenas insulto. É um insulto perverso, insolente e demencialmente elevado. «Winston, você não passa de um bêbedo», diz Lady Astor a Churchill numa festa social. E Churchill, sem perder a compostura, responde: «E você, minha querida, é feia. Mas amanhã eu já estarei sóbrio».

O MESMO Churchill, na Câmara dos Comuns, confrontado com as críticas de uma parlamentar inflamada: «Se eu fosse sua mulher, punha veneno no seu chá». E Churchill, sem perder a compostura, responde: «E se eu fosse seu marido, bebia-o».

AGORA tracem as diferenças. A nossa vida social, vendida pelas revistas da paróquia, pinga vulgaridade. As elites de um país definem esse país? Pois bem: as nossas elites mais visíveis são compostas por jogadores de futebol, apresentadores televisivos e concorrentes do Big Brother. Um cortejo grotesco, que diz tudo sobre Portugal. As frases desta gente são deprimentes e vulgares. As fronhas são deprimentes e vulgares. Os amores são deprimentes e vulgares. As casas são deprimentes e vulgares. Os sentimentos são deprimentes e vulgares. As férias, invariavelmente no Algarve, são deprimentes e vulgares. Os gostos são deprimentes e vulgares. As opiniões são deprimentes e vulgares. A roupa é deprimente e vulgar. A educação é deprimente e vulgar. Tudo é deprimente e vulgar porque tudo surge infectado pelo vírus deprimente e vulgar da classe média arrivista e endinheirada, amante do exibicionismo saloio ou, então, da moderação pacóvia, obsessivamente preocupada com o decoro, a imagem, as aparências.  [...]

NÃO SE PENSE que a arte da rudeza pode existir sem humanidade. Pelo contrário: só pessoas invulgarmente humanas podem ser invulgarmente rudes. Serge Gainsbourg, outro patife nobre, disse um dia a um jovem cantor em ascensão: «Provoca, provoca sempre. Mas nunca deixes de ser humano». A rudeza é humanidade em estado puro. Puro e duro. Quando Evelyn Waugh soube que o seu amigo Randolph Churchill fora submetido a uma operação cirúrgica para a remoção de um pulmão, Waugh comentou: «Não acham a medicina moderna fascinante? Os médicos prescrutaram todo o corpo de Randolph e resolveram retirar-lhe a única parte que não era maligna». Delicioso Evelyn. Patifório Evelyn. O mesmo Evelyn que, semanas depois, ao encontrar o seu amigo em dolorosa convalescença, não hesitou em abraçá-lo, com as lágrimas nos olhos. [...]

Filhos, não obedeçam sempre aos vossos pais. Pais, não queiram ser como os vossos filhos. Rapazes, aprendam a abusar. Riam muito. Chorem ainda mais. Provoquem. Excedam-se. Sejam inteligentes. Sejam elegantes. Sejam nobres. E, puta que pariu, sejam rudes e humanos.

(João Pereira Coutinho)

Thales Azevedo.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Top 10 - Vilões do cinema

O que seria do cinema sem a maldade? No mínimo, seria muito menos interessante. Ou melhor, seria completamente desinteressante, já que a maldade existe no mundo e nos acompanha desde sempre. Nós, quando crianças, já tomamos conhecimento de que há vilões ao nosso redor. Apesar do medo, o encantamento que eles provocam em todos nós é inegável. “O que levou ele a ser tão malvado?” é uma das perguntas que fazemos a nós mesmos na infância. Aos poucos, percebemos que a coisa é muito mais complexa, afinal, todos nós podemos ter nossos momentos de vilões, até sem querer. Isso faz parte da índole do ser humano, da complexidade que fazem de nós seres distintos. E quanto ao cinema? Bom, ele deve muito aos vilões. As interpretações dos atores cujos vilões são marcantes merecem ser sempre reconhecidas e aplaudidas por todos nós que admiramos a cultura da chamada sétima arte. É para homenageá-los que nós apresentamos o primeiro Top 10 do blog.

Hannibal Lecter - “Hello, Clarice.” (O Silêncio dos Inocentes)

Quando pensamos em serial killer no cinema, logo nos vêm à mente o personagem da vida de Anthony Hopkins, Hannibal Lecter. Mesmo aqueles que nunca viram “O Silêncio dos Inocentes” conhecem a figura marcante de um dos ícones da cultura cinematográfica americana. O doutor Lecter é quase um gentleman. Culto, fala sem pressa e mede bem suas palavras, como se estivesse dissecando uma das suas vítimas, aprecia música clássica e uma boa culinária – no seu caso, ele prefere carne humana. Não é à toa que ele é conhecido como “Hannibal, the Cannibal”, dentro do meio policial. E é de lá que emerge a personagem de Jodie Foster – outra vez, a personagem da vida – Clarice Starling. Ela precisa do conhecimento maligno – um bom adjetivo, sem dúvidas – de Hannibal para descobrir onde se encontra o serial killer “do momento” conhecido como “Buffalo Bill”. Na tentativa de obter informações de Lecter, Clarice entra numa jornada de autoconhecimento, que vai determinar para sempre sua vida.

Coringa – “Come on, I want you to do it, I want you to do it. Come on, hit me. Hit me!” (Batman – The Dark Knight)

O Coringa é, como ele próprio se define, um agente do caos. Um ser sem passado (e que, por isso mesmo, gosta de contar diversas histórias sobre como adquiriu as suas cicatrizes na boca) e que está no mundo apenas para ver o circo pegar fogo. Toda sua loucura e imprevisibilidade é realçada ainda mais pela atuação magistral de Heath Ledger, que conseguiu pegar um vilão já consagrado das histórias em quadrinhos do Batman e elevá-lo a um patamar superior, transformando-o num dos personagens mais amedrontadores e fascinantes vistos no cinema. Aí, eu lhe pergunto : “Why so serious?”

Frank Boot – “Baby wants to fuck! Baby wants to fuck Blue Velvet!” (Veludo Azul)

Frank Booth, interpretado por Dennis Hopper, talvez seja o vilão mais bizarro desta lista. Afinal, ele é um maníaco sexual que praticamente escraviza a protagonista do filme, Dorothy Valles , obrigando-a a realizar seus desejos carnais mais obscuros sem que ela olhe para o rosto dele – “Don´t you fucking look at me!” -, utilizando muitas vezes uma máscara de nebulizador aterrorizante. O personagem representa algo completamente oposto ao aparente clima de normalidade de uma cidadezinha chamada Lumberton, no interior dos Estados Unidos, que confronta diretamente com o protagonista/herói da história, o bom-moço Jeffrey Beaumnont. Frank Boot representa o que há de mais controverso na personalidade humana, dentro de um sub-mundo bizarro e cruel. E de bizarrice o diretor David Lynch entende como poucos...

Jack Torrance – “All work and no play make Jack a dull boy”. (O Iluminado)

A representação da progressiva degeneração mental de um homem trancafiado, a trabalho, com sua mulher e um pequeno filho com dons sobrenaturais em um hotel coberto de gelo, isolado de qualquer vestígio de civilização, dominado por forças misteriosas. É Jack Nicholson, com sua espontânea e brilhante capacidade de incorporar a esquizofrenia, ao lado do gênio absoluto, conhecido por perfeccionismos e peculiaridades, Stanley Kubrick, em O Iluminado. Delírios repletos de paranormalidade entram em cena, com toques missionários, sede de violência e ele, o machado, nesse que é um dos grandes clássicos do terror.

Rev. Harry Powell – “ I can hear you whisperin' children, so I know you're down there. I can feel myself gettin' awful mad. I'm out of patience children. I'm coming to find you now.” (O Mensageiro do Diabo)

O reverendo Harry Powell – interpretado soberbamente por Robert Mitchum - é, sem dúvidas, um dos vilões mais clássicos da história do cinema. O que dizer da sua famosa apresentação em que ele confronta os lados do Ódio e Amor escritos nos seus dedos – HATE na mão esquerda e LOVE na mão direita -, “lutando” uma mão contra a outra? Harry Powell, com muito carisma, ensina a todos como um homem de religião devota: “Agora vejam e eu lhes mostro a história da vida: estes dedos estão sempre em guerra e lutando uns contra os outros. Agora vejam-nos...O Ódio da mão esquerda lutando, e parece que o Amor está perdido... Mas esperem! Ora essa, o Amor está vencendo! Sim, senhor, o Amor venceu!”

Apesar de andar citando trechos da Bíblia e dar lições de moral, Harry Powell é, na verdade, um grande golpista que se aproveita de viúvas para dar golpes sucessivos. Assim é a sua vida. Com muito carisma ele conquista a confiança das pessoas e, com uma personalidade digna de serial-killer, dá o bote, sem demonstrar nenhum arrependimento, até mesmo se for preciso matar crianças. E são duas elas, em
“O Mensageiro do Diabo”, as heroínas da história, que confrontam o reverendo para que ele não tome posse das posses roubadas pelo pai delas, Ben Harper. E fazem isso mesmo que precisem fugir sem destino definido...

Darth Vader – “I have you now!” (Star Wars)

Darth Vader é o vilão mais pop do cinema e um dos melhores elementos de Star Wars (juntamente com o Han Solo de Harrison Ford); ele é tudo aquilo que um vilão espera ser e dificilmente conseguirá. A transformação de Anakin Skywalker no Lorde Sith é algo fascinante de ser acompanhado ao longo dos filmes, mostrando bem de onde vem toda a sua maldade. Sua presença na tela é impressionante, com a voz metálica e pausada, sua respiração característica e uma armadura preta imponente, sendo impossível o telespectador olhar para outra coisa quando ele aparece em cena. Além disso, ele é responsável por uma das cenas antológicas do cinema, ao revelar que é o pai de Luke Skywalker no final de “Star Wars Episódio V : O Império Contra-Ataca” (o melhor filme da série, diga-se de passagem).

Alex – “Welly, welly, welly, welly, welly, welly, well. To what do I owe the extreme pleasure of this surprising visit?”(Laranja Mecânica)

Para alguns, ele é um vilão. Para outros, uma espécie de anti-herói. O que parece ser consenso é que Alex de Large é uma das figuras mais impressionantes que o cinema já ofereceu. Um fenômeno pop. Um fruto do caos moderno previsto por Anthony Burgess e adaptado para as telas pelo gênio Stanley Kubrick. Como o Coringa de Batman – The Dark Knight -, Alex é um exímio causador do caos. Por que ele faz isso? Pra se divertir, claro! A ultraviolência pregada por Alex causa sensações diversas, não sabemos se rimos ou choramos de raiva, não temos certeza se amamos o personagem ou se sentimos por ele desprezo. No final das contas, sentimos um pouco de tudo isso, o que torna o personagem absolutamente fascinante. Com as memoráveis músicas de Beethoven nos deliciamos com as cenas fantásticas de Laranja Mecânica, presenciando a jornada de Alex em uma sociedade decadente nesse polêmico filme que é obrigatório para todo bom cinéfilo.

Norman Bates – “A boy's best friend is his mother.” (Psicose)

Anthony Perkins é o ator de um papel só. Porém, o único papel grandioso que ele fez, é o que o fará ser lembrado por gerações de cinéfilos: o de Norman Bates, o psicótico e frio atendente de hotel do filme “Psicose” de Alfred Hitchcock. Não fosse pela atuação magistral de Perkins e pela direção brilhante do “mestre do suspense”, Psicose não seria metade do que é hoje. O personagem de Norman Bates é tratado de forma surpreendente pelo roteiro bem construído, um homem carismático e que aos poucos nos revela a sua verdadeira natureza (convenhamos : um cara que mata suas vítimas vestido igual à sua mãe não é algo que se vê todo dia no cinema). A cena do banheiro é uma das mais famosas do cinema e já foi imitada em diversas outras produções. Sem dúvidas, Norman Bates é um vilão fabuloso, pertencente a um dos melhores filmes de Hithcock.

Eve Harrington – “If nothing else, there's applause... like waves of love pouring over the footlights.” (A Malvada)

Eve é, como diz um dos personagens de A Malvada, “uma garota de inúmeras qualidades”. Ela é meiga, batalhadora, educada, atenciosa, humilde... Ou melhor, aparentar ser. Eve, interpretada por Anne Baxter, usa uma máscara. No fundo, ela é o tipo de garota (a única vilã da lista, diga-se de passagem) que faz de tudo para conseguir o que quer, mesmo que para isso tenha que arruinar a carreira da atriz que ela mais idolatra, Margo Channing, interpretada pela lendária Bette Davis. O contexto do filme é o teatro, mostrando de forma ácida, basicamente, os bastidores de todo um ambiente cercado por interesses e disputas de ego. A transformação de Eve no filme é gradual, de boa-moça a vilã definitiva. Na fase final da transformação de Eve, já prenunciada com Margo na frase mais clássica do filme: “Apertem os cintos, será uma noite turbulenta!”, temos medo quando o monstro interior de Eve vem à tona. No final das contas, concluímos que nem sempre as pessoas são o que aparentam ser.

Max Cady – “Every man... Every man has to go through hell to reach paradise.” (Cabo do Medo)

Catorze anos dentro das grades proporcionaram forças físicas e mentais, alavancaram a psicopatia e alimentaram um brutal desejo de vingança em Max Cady, da refilmagem realizada por Martin Scorsese de Cabo do Medo. Enquanto ocupa-se em se tornar letrado e indestrutível, o vilão descobre que seu advogado não usou os argumentos que poderia para amenizar a sua punição e resolve persegui-lo obsessivamente depois de livre, atingi-lo de todas as formas possíveis, promovendo o caos em sua casa, seduzindo a sua filha adolescente, dominando mecanismos judiciais para se blindar. Não há diálogo ou possibilidade de acordo, não há interesse em extorsão, não há nada que o faça parar. É um homem guiado pela ira, a proclamar o terror como único objetivo de vida.

Twin Peaks

David Lynch e Mark Frost deram uma de Hitchcock em Twin Peaks. Respeitaram o gênero, a novela, com suas simplificações de comportamento, melodramatização, isto é, como a massa vê as coisas, ou como pensa que vê, e encheram o formato de silêncios penetrantes, imagens vivas, frescas, um diálogo que, sem ser intelectual, é dos mais inteligentes que já ouvi, e até a música, usando às vezes em crescendo orquestral um acorde de uma gravação célebre de Bob Dylan e Johnny Cash, colabora para dar uma densidade e profundidade àquela aparência lavada e rica da realidade americana que é raro até vermos em filme. Quando a televisão de alta definição se tornar comercial, ninguém mais irá ao cinema, logo é melhor tentar dizer alguma coisa com a linguagem de televisão.

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O langor mórbido de David Lynch. Cada cena do último episódio de "Twin Peaks" parece auto-suficiente e é esmiuçada, acabada, até o último "take". Gente que nunca deu no couro como atriz, Piper Laurie, deliciosa quando jovem, parece renascida em Stanislavski. E as piadas "in" como ter Richard Beymer, cantor saudável de "West Side Story", como um tarado, e Russ Tramblyn, dançarino amado pelas meninas e bocas de fogo dos musicais da Metro dos anos 50, como um psiquiatra tarado por Laura Palmer, a heroína que morreu. Lynch desconstrói o simplorismo, melodramatismo e linearidade da "soap" típica, enchendo esses vazios com mensagens contraditórias, insuflando uma ambivalência na conduta das pessoas, que é o que obras de arte fazem, mas o povão detesta. Me contaram que no "Pantanal" aparece o Pantanal e nu frontal e trepadas. Não há o menor nu em "Twin Peaks", mas garanto que o erotismo é muito maior, não naturalmente para quem acha "Playboy" erótico, mas para quem já passou da fase do açougue. Lynch está mesmo de costas para lua. Não que aqui tenha importância, mas ganhou a Palma de Ouro de Cannes, com "Wild at Heart", e foi, como todo bom ganhador, copiosamente vaiado (li em dois jornais brasileiros que foi aplaudido. Li sobre a vaia no "Times", nesses assuntos tão digno de confiança quanto o "World Almanac"). Aparece na foto com a mulher, Isabella Rosselini, que vejo algumas vezes no Sonho. Ela, uma das modelos mais bem-pagas do mundo, dez mil dólares a hora, anda sempre toda esculhambada, ele se veste sobriamente. Mas o sucesso de Lynch não é em cinema, cada vez com menos público, mas pelo que penetrou na televisão. Gente que nunca dá a menor pelota à programação das redes saiu da toca para comentar a minissérie. Isso parece ter provocado ciúmes tremendos nos profissionais da rotina, porque, apesar de "Twin Peaks" estar na frente em audiência de outros "soaps", como "Dallas" etc., em que ninguém que eu conheça sabe o que está acontecendo, a minissérie foi posta às dez da noite sábado a partir de setembro, que é o pior horário das redes em horário nobre. Nas revistas de show business se sentia um ressentimento do interesse de intelectuais em "Twin Peaks", quando todos, à menor provocação, estão dispostos a declarar que a televisão nos EUA é um lixo e que deseduca as massas.

(Paulo Francis)

Thales Azevedo.