domingo, 31 de maio de 2009

Zii e Zie Salvador

05/06, Concha Acústica.
Thales Azevedo.

Elvis Costello - Secret, Profane & Sugarcane

Como é bom acordar num domingo e ouvir um ótimo disco! O domingo ideal: acordar, ler as notícias de algum jornal, ouvir música de qualidade, almoçar fora, descansar, ver uma partida do seu time - com vitória - e, à noite, assistir a um clássico. Infelizmente, isso poucas vezes acontece. Mas quando acontece... Ah, é bom demais!

Hoje acordei tarde mas deu tempo de conhecer o novo disco de um cara que eu gosto bastante. Elvis Costello continua na ativa e fazendo trabalhos dignos, como Secret, Profane & Sugarcane, que será lançado dia 02 de junho. Eu já escutei. Calma, não fiz nada ilegal! O disco na íntegra encontra-se no site do Costellão.

Tá aqui minha recomendação. Abaixo, o vídeo de divulgação do disco.

Elvis Costello | Down Among the Wines and Spirits from Concord Music Group on Vimeo.


Alexandre Rios.

sábado, 30 de maio de 2009

Se Meu Apartamento Falasse

Bom cinema é muito mais do que a simples soma de palavras e imagens. Os melhores filmes funcionam como passes de mágica. Nestas produções, não é raro que a soma de 2 mais 2 dê 5, ou mais. Os melhores diretores são aqueles que aplicam a teoria básica da montagem de Eisenstein (o significado é construído a partir do choque de duas tomadas) em um nível mais profundo. Você soma diálogos, música, fotografia, direção de arte, atuações para conseguir um significado que dois ou três destes elementos, sozinhos, não dariam conta. Um dos diretores que mais fez filmes neste nível superior foi o austríaco Billy Wilder. “Se Meu Apartamento Falasse” (The Apartment, EUA, 1960), uma das comédias românticas mais brilhantes de todos os tempos, é um deles.

A idéia que está na base de “Se Meu Apartamento Falasse” começou a germinar na cabeça de Billy Wilder quase vinte anos antes, em 1946. O diretor austríaco roubou-a de um filme de David Lean chamado “Desencanto”, que ele viu no mesmo ano. O filme tematizava o affair proibido de um homem e uma mulher, ambos casados com outras pessoas. Para se encontrar, eles usavam o apartamento de um amigo, um sujeito que aparece em apenas duas cenas. Na cabeça de Wilder, este personagem quase invisível tinha uma história mais interessante do que a do casal. Podia virar um protagonista.

No entanto, Wilder não era bobo. Ele sabia que naquela época o sistema de censura existente em Hollywood jamais permitiria um filme cuja trama tinha como base geográfica um apartamento usado para encontros sexuais proibidos. Anotou-a para o futuro. Esperou até 1959, quando a ocasião propícia finalmente apareceu. Na época, vários fatores pareciam convergir em favor do projeto: Wilder se tornara um dos diretores mais respeitados do mundo; a mentalidade das pessoas estava mudando e as noções de infidelidade e sexo fora do casamento eram muito mais naturais; e a censura em Hollywood enfraquecia a olhos vistos.

Para completar, o diretor acabara de encontrar o ator perfeito para o personagem: Jack Lemmon. Junto com o roteirista parceiro I.A.L. Diamond, Wilder desenvolveu o enredo de modo bem diferente de uma comédia romântica clássica, mas de forma que o filme pudesse aproveitar todo o potencial cômico do ator. É uma história simples, calcada em uma situação curiosa: uma das centenas de funcionários anônimos de uma mega-seguradora, C.C. Baxter (Lemmon), empresta seu apartamento em Nova York para que os superiores hierárquicos, como o chefão Sheldrake (Fred MacMurray), possam se encontrar com as amantes, enquanto ele mesmo é obrigado a passar quase todas as noites no frio da calçada, esperando para voltar para casa.

O grande segredo da excelência de “Se Meu Apartamento Falasse” foi o cuidado com que o diretor austríaco construiu os dois personagens principais – além de Baxter, há a ascensorista Fran Kubelick (Shirley MacLaine), que é o interesse romântico do protagonista na história. O cineasta recusou os estereótipos das comédias de costumes tradicionais, onde os protagonistas normalmente têm os perfis situados em situações-limite. Ou seja, em geral os personagens principais de tais filmes são pessoas puras e ingênuas, ou são canalhas a caminho de uma inevitável redenção. Aqui, porém, não há nada disso. Wilder não gosta de pretos e brancos; prefere explorar a área cinzenta e muitas vezes indefinível que fica no meio.

Baxter e Fran são jovens, mas já conhecem os caminhos traiçoeiros da vida. Já levaram muitas sarrafadas do destino e se acostumaram à derrota. Mantêm uma ponta de esperança, sim, mas sem fazer devaneios impossíveis. São dois seres resignados. “Este filme não é sobre como a vida é bela. É sobre como a vida é”, costumava dizer Wilder. Com este conceito em mente, os roteiristas criaram um protagonista rico, complexo, tridimensional, cheio de camadas. Um homem de carne e osso, alguém cuja existência extrapola os limites retangulares de uma tela de cinema.

Seria fácil transformar Baxter em um personagem artificial e unidimensional, uma marionete do diretor, calcada nos clichês do gênero. Ele poderia ser um homem simplório manipulado por gente mais esperta, ou um espertalhão ambicioso que empresta o apartamento aos chefes apenas com a intenção de galgar a hierarquia da empresa. Mas Baxter é ambos, ou melhor, transcende as duas coisas. É um rapaz meio tímido, esforçado no trabalho, à procura de uma chance na vida, e incapaz de dizer “não”. De fato, o roteiro do filme é tão bom que Baxter, quando se vê preso na armadilha do apartamento, desenvolve uma tortuosa linha de raciocínio sobre ser um parasita social. Ele acredita mesmo nisso. Mas a gente sabe que não é verdade. Baxter não passa de um homem comum, alguém que se meteu inadvertidamente em uma situação complicada e não consegue sair dela.

As qualidades impecáveis de Wilder como diretor se manifestam não apenas na construção dos dois personagens inesquecíveis, mas nos outros departamentos. A direção de arte é um excelente exemplo. Observe como o apartamento citado no título parece apertado, sufocante, um peso que o personagem carrega nos ombros; para conseguir este efeito, Wilder mandou o responsável pelo setor, Alexander Trauner, retirar a cor branca dos cenários, de forma a suprimir os espaços vazios e acentuar essa impressão claustrofóbica.

Outro exemplo é a maravilhosa tomada em que Baxter some atrás de uma verdadeira multidão de escrivaninhas, todas idênticas, no espaçoso salão em que os vendedores de seguro, como ele, se acotovelam para trabalhar. A câmera inicialmente mostra apenas o nosso herói, mas aos poucos vai se afastando até revelar a imensidão do escritório – Baxter senta na escrivaninha número 831. Esta tomada mostra como é importante que o movimento da câmera seja planejado não de forma gratuita, mas em função da história. Da forma como a cena foi filmada, Wilder comunica ao público exatamente que tipo de homem é Baxter: um reles funcionário sem importância, um pequeno parafuso numa enorme engrenagem. Um zero à esquerda. Um de nós, enfim.

Quer mais um exemplo? Então confira a antológica seqüência em que Baxter utiliza uma raquete de tênis para escorrer o espaguete, ao cozinhar para a mulher amada. Duas coisas diferentes são comunicadas ao mesmo tempo: o fato de que Baxter é um solteiro bagunçado (caso contrário, certamente teria um escorredor) e, também, que possui um charme espontâneo impossível de ignorar (o ato de cozinhar para uma mulher é sempre simpático). Portanto, a mesma cena estabelece duas características importantes do personagem, e de quebra consegue sacramentar um inspirado e refinado momento cômico.

Se C.C. Baxter é responsável pela maior parte dos bons momentos cômicos, Fran Kubelick é uma personagem dramática por excelência. Ascensorista cobiçada por todos os homens da empresa, ela parece ser a garota dos sonhos de Baxter: linda, simpática, inteligente, não sai com qualquer um. O filme vai revelando aos poucos os detalhes da vida de Fran, até que descobrimos que ela não é o que parece; é na verdade uma mulher presa a uma paixão devastadora, uma paixão da qual não consegue se livrar. Ela sabe que o namoro é um beco sem saída e tem consciência de que deveria seguir em frente, mas simplesmente não consegue – e todos nós já vivemos, ou conhecemos alguém que viveu, uma situação assim, não é mesmo?

Para completar, a escalação do elenco é perfeita, do começo ao fim. Jack Lemmon é tudo o que Jim Carrey gostaria de ser, um ator dramático intenso com timing cômico perfeito. Shirley MacLaine, além de linda, possui um rosto angelical, que exala inocência, o que se revela fundamental para despertar um choque no público, quando passamos a conhecer o atormentado passado dela. Por fim, a cereja no topo do bolo: Fred MacMurray como o chefão Sheldrake, um canalha egoísta, fazendo uma sutil alusão ao papel que o ator interpretou em “Pacto de Sangue” (1944), do mesmo Wilder – Sheldrake seria exatamente o homem que o protagonista do clássico noir teria se tornado, caso não houvesse entrado no mundo do crime, duas décadas antes.

A união de tudo isso resulta em um filme perfeito, romântico de pé no chão, um filme perfeito para casais que, no entanto, jamais abdica de ter um pé da realidade dura e fria (neste caso, considerando o inverno da Nova York mostrada em cena, literalmente). As escolhas estéticas do diretor aperfeiçoam e dão consistência extra ao que realmente importa: uma galeria de personagens maravilhosa, gente de carne e osso, com quem a gente se importa mesmo depois de terminada a projeção.

Tanto isto é verdade que, até o fim da vida, Billy Wilder teve que responder a uma pergunta recorrente dos admiradores: o que ocorreu com Baxter e Fran depois da sensacional frase “cale a boca e dê as cartas”, que encerra a produção? A resposta de Wilder revela o diretor sensacional que ele era: quando escreveu o filme, o diretor pensava que dois personagens tão pobres e sem imaginação não conseguiriam viver juntos por muito tempo; ao terminar de filmar, não tinha mais certeza. Os dois haviam adquirido vida própria.

Por Rodrigo Carreiro (Cine Repórter)

Alexandre Rios.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Françoise Hardy - L'amitié



Vejam o filme As Invasões Bárbaras.
Thales Azevedo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Brandamente Brasil

Os brasileiros somos mestres em dar nomes escalafobéticos aos filhos. Eu conheci dois Escalafobéticos.

Escalafobético Bezerra e Escalafobético da Silva. Nunca pensaram em mudar o nome. Iam vivendo como Deus é servido. Aliás outro nome exótico: Servo Fiel de Deus.

Está tudo na net. Dei umas braçadas, achei um blogue jeitoso enfileirando 250 nome escalafobéticos.

Lá estão Abrilina Décima Nona Caçapava, Agrícola Beterraba Areia Leão, Amado Amoroso, Antônio Americano do Brasil Mineiro, Arnaldo Queijo, Bananéia Oliveira de Deus, Bucetildes (chamada pelos familiares de Dona Tide, conforme o site me elucida, embora sem dar o sobrenome, no qual nem quero pensar), Céu Azul do Sol Poente, Colapso Cardíaco da Silva, Disney Chaplin Milhomem de Souza, Faraó do Egito Souza, Farmácio Lopes, Pelumendia Loureiro, Gravitolina Pereira, Adoração Arabites, Dozolina Piroca Tazinasso, Légua e Meia, Sansão Vagina, Oceano Atlântico Linhares e o famoso, para conhecedores do gênero, Um Dois Três de Oliveira Quatro.

Eu poderia continuar. E continuar. Paro por aqui.

Nem vou falar daquela nordestina maneira de juntar as primeiras sílabas dos nomes do pai e da mãe. Todos aqueles Carmares (de Carlos e Maria), Djavans (de Djanira e Ivan) e assim por diante.

Assim Por Diante das Cruzes. Um bom nome.

Reforma ortográfica entra, reforma ortográfica sai e, até agora, ninguém baixou Ato Institucional ou Medida Provisória que impeça pai e mãe de marcarem o nome dos filhos para toda a vida com letras em brasa. A bem da verdade, nem sei se eles, os filhos assim designados (Assim Designado das Dores; ih, cuidado que esse negócio pega!), se incomodam. Já há tantos problemas no país que não há de ser uma Terebentina Terepenis ou Vaginildo de Oliveira (ambos existem e, até onde se sabe, vivem vidas normais e produtivas) que irá jogar areia na máquina que, finalmente, partiu para o progresso e as grandes conquistas sociais.

Na França, consta que qualquer coisa que varie um tico de Jean-Claude ou Marie-France e o escrivão é obrigado por lei a não registrar.

No Reino Unido, o direito de mudar de nome é uma das pequenas porém sagradas liberdades da terra. Qualquer dos equivalentes aos nomes estrambóticos brasileiros por mim citados pode chegar no cartório e mudar o nome para Kevin, Elizabeth ou Keith. Ou o que lhes der na telha. A mudança de nome legal aqui é chamada de deed poll, no que fazem muito bem.

Tem mais. Mulher casada, se quiser, pode manter o nome de solteira. Uma criança não é obrigada a carregar nas costas pelo resto da vida o nome do pai. Os escalafobéticos locais escalafobéticos continuam e vão muito bem, sim, senhor e yes, sir. Perri 6 é o nome - legal, oficial - de um professor na universidade Trent Nottingham. Happy Adjustabale Spanners foi como, por deed poll, Daniel Westfallen preferiu ser oficial e legalmente conhecido no ano passado.

Nesse mesmo 2008, 46 mil pessoas foram de deed poll. Às vezes, não estivéssemos na Grã-Bretanha, as coisas se complicam. Eileen de Bont, da região norte do País de Gales voluntariou-se, em singela homenagem a uma caridade, para mudar seu nome para Pudsey Bear, que é o nome (sim, meio escalafobético) do ursinho marca registrada e mascote da popular beneficência Children in Need.

Eileen foi e mudou. Tudo bem. Só deu bolo com as autoridades encarregadas de passaportes, que alegaram que, embora legal, a mudança de nome era frívola. A carteira de motorista, os cartões de crédito e seu registro no imposto de renda botaram lá direitinho: Pudsey Bear. Sem problemas. Quem que esse pessoal dos passaportes pensa que é para chamar alguém de frívola?

O caso virou caso e está correndo.

Ah, sim. Brandamente Brasil. Está na lista do blogue em que mergulhei. Sabe que eu achei bonito? Um dia desses eu empombo e mudo meu nome legalmente, ou por deed poll, para Brandamente Brasil.

(Ivan Lessa)

Thales Azevedo.

domingo, 24 de maio de 2009

Os ditadores e o medo da internet

Premiado trabalho da da agência Ogilvy & Mather em pôsteres para a ISHR (International Society for Human Rights) satirizando o medo que certos governantes pouco afeitos à liberdade de expressão têm da internet.


Clique para ampliar.
Thales Azevedo.

sábado, 23 de maio de 2009

O que fazer quando chove?

Gosto muito quando chove. Que me desculpem as pessoas que sofrem com a chuva. Mas, amigo leitor, a atmosfera – e não estou me referindo apenas à geografia física – que as chuvas trazem é sensacional. Ainda mais pra aqueles que vivem em locais mais quentes, como eu. Não tenho muito tempo pra aproveitar esse clima - se bem que esse ano tem chovido bem mais que o normal e a previsão é de que continue assim por mais alguns meses. Meu professor disse que tudo isso é conseqüência da La Niña. E eu acredito nele. Bom, na sua cidade também está chovendo e você tá aí, sozinho, parado em frente ao computador, vendo o orkut dos outros e ouvindo Radiohead? Vou te ajudar a melhorar sua vida com algumas dicas.

Filmes: Não há nada melhor para se fazer quando chove do que ver alguns filmes. Acabei de ver “Uma mulher para dois” – não, não é o 'Jules e Jim' do Truffaut – com o Robert de Niro e Bill Murray. Estava me perguntando como um filme com esses dois caras, produzido por Martin Scorsese, sendo uma comédia romântica com uma trilha sonora digna de filmes de máfia, seja tão desconhecido por aqui. Bom filme, apesar de um pouco irregular. Dá pra quebrar o galho em dias de chuva. Mas nem se compara com os dois que irei recomendar agora.

Cantando na chuva é uma sugestão previsível, claro. Mas não dá pra deixar passar essa obra-prima do cinema americano! Este filme carrega o peso do cinema nas costas, expressa toda uma cultura fantástica com boas músicas, boas danças, gente bonita e uma história envolvente. Precisa de algo mais?

Tem também um dos meus filmes preferidos: Se meu apartamento falasse. Meu Deus, como eu gosto desse filme! Billy Wilder é um gênio. Jack Lemmon é um ator maravilhoso. E 'Se meu apartamento falasse' é um filme divertido, sensível, mágico. Talvez seja o filme que eu mais me identifiquei em toda minha vida. Costumo dizer que é um filme de Woody Allen nota dez. Não que eu não goste do Woody, muito – e põe muito nisso – pelo contrário. Mas nunca vi um filme dele que chegue à perfeição. Billy Wilder fez dois, em minha opinião. E por que eu estou trazendo Woody Allen na conversa mesmo? Bom, o filme do apartamento tem jazz, Nova Iorque e diálogos geniais. Não precisa mais prosseguir, certo?

Livros: Envergonho-me de ler pouco. Mas pegue algo de Agatha Christie e vá ser feliz!

Música: Jonas Brothers ou Radiohead? Nenhum dos dois. Recomendo algum disco de jazz. Kind of Blue, do Miles Davis, ou Doin´ Allright, do Dexter Gordon. Qualquer um dos dois tá de bom tamanho, companheiro. Se você não quer algo apenas instrumental tem outra opção. Hoje escutei bastante Louis Prima. Muito interessante, bem divertido. Abaixo um vídeo com uma música dele. Boa diversão!



Alexandre Rios.