sexta-feira, 18 de abril de 2008

Roman Polanski e a Trilogia dos Apartamentos

Nascido em Paris e filho de um judeu com uma católica, Roman Polanski, grande e perfeccionista cineasta, consagrado internacionalmente apenas em 2002, com O Pianista, teve uma vida marcada por episódios perturbadores e polêmicos. Adquiriu assim uma personalidade refletida, muitas vezes, nos tons de suas obras. Sua mãe morreu num campo de concentração e sua ex-mulher, Sharon Tate, grávida de oito meses, foi assassinada por integrantes de um culto liderado por Charles Manson. Condenado por estupro de uma garota de 13 anos, Polanski não pode ir aos Estados Unidos desde 1978. Ambientes fechados e sufocantes, marcados por um horror claustrofóbico, clima obscuro e natureza enervante são elementos que unem, incidentalmente, três de seus maiores filmes, conhecidos como Trilogia dos Apartamentos: Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e O Inquilino.

Talvez o mais denso dos três, Repulsa ao Sexo, de 1965, é o primeiro trabalho do diretor em língua inglesa. O elenco é encabeçado pela belíssima Catherine Deneuve, interpretando, incrivelmente bem, Carol, uma manicure que vive com a irmã liberal (Yvonne Furneaux) num pequeno e escuro apartamento em Londres. Com sérios distúrbios psicológicos e sexuais, Carol não tolera aproximações masculinas que ultrapassem um frágil limite. A primeira seqüência, com um close nos olhos distantes de Deneuve, sem palavra alguma (por sinal, a protagonista quase não fala), já permite a percepção de que algo foge aos parâmetros da normalidade. Quando a irmã resolve viajar por alguns dias com o namorado, a manicure se vê sozinha no apartamento. É o suficiente para que seus sinais de desequilíbrio comecem a se aprofundar. Delírio e realidade se confundem, agora, entre cenas fortes, envolvendo sexo e morte. A fotografia em preto e branco intensifica uma sensação de desconforto, juntamente com a direção de arte e com a trilha sonora minimalista. A construção é primorosa e o desfecho, antológico.


Respeitado na Europa, Polanski parte para seu primeiro filme nos Estados Unidos, em 1968, O Bebê de Rosemary, um dos mais assustadores já realizados. Ao se mudar para um apartamento, um casal, Rosemary e Guy, interpretado por Mia Farrow, impecável, e John Cassavetes, conhece velhinhos estranhos, novos vizinhos. Estes enchem de mimos os recém-chegados, levantando hesitação e desconfiança em Rosemary, enquanto seu marido, um jovem ator, parece hipnotizado com a presença dos mesmos. Rosemary engravida e os mimos se intensificam. Logo, os vizinhos cuidam de assumir o processo, acompanhando minuciosamente, indicando um médico conceituado e fazendo vitaminas alternativas recomendadas pelo próprio. A carreira de Guy, então, decola, a partir de eventos inusitados, como a cegueira repentina do candidato que iria assumir o seu papel. Rosemary, frágil e delicada, se torna confusa e paranóica, acredita estar sendo vítima de uma conspiração demoníaca. Guy teria feito um pacto com vizinhos feiticeiros, prometendo o bebê em troca de sucesso profissional. Como em Repulsa ao Sexo, realidade e alucinação passam a se misturar.

Habilmente, Polanski torna a trama ambígua, assim, mais verossímil, fortes argumentos sustentam tanto a hipótese de que a conspiração é real quanto a de que é apenas um delírio de uma mulher ansiosa que passa por uma gravidez complicada. Sendo o filme adaptado de um livro, os traços sobrenaturais óbvios foram cuidadosamente retirados. Robert Evans, o produtor (O Poderoso Chefão, Love Story), que colocou Polanski no filme, deu a este liberdade total para fazer alterações no roteiro. O satanismo, assunto bastante presente na sociedade ocidental no fim dos anos 60, nunca foi levado a sério pelo diretor. As cenas finais são tensas e marcantes, o suspense absoluto permanece. A direção de arte explora uma arquitetura gótica e a fotografia, repleta de sombras, é envolvente. Mia Farrow, pressionada pelo então marido, Frank Sinatra, para sair do projeto, acabou convencida a continuar, o que lhe custou o divórcio, mas rendeu, possivelmente, o filme mais brilhante de sua carreira.


Numa produção franco-americana de 1976, menos comercial, O Inquilino, a temática retorna, pela última vez. O protagonista deste filme perturbador, Trelkovsky, imigrante polonês que chega a Paris e aluga um quarto em um pequeno prédio suburbano, é interpretado pelo próprio Polanski, que se mostra talentoso também como ator e obtém um desempenho satisfatório. A antiga inquilina do apartamento alugado, Simone Choule, atirou-se da janela e está internada, com chances de sobrevivência muito remotas. Trelkovsky resolve lhe fazer uma visita e, no hospital, conhece Stella (Isabelle Adjani), amiga da interna, com quem começa um relacionamento. Presencia, com ela, neste mesmo momento, a morte de Simone. No prédio, então, o novo inquilino começa a perceber comportamentos estranhos por parte dos vizinhos, rígidos e repressores na manutenção da ordem do local, como quando os observa num banheiro externo, um de cada vez, olhando para o apartamento dele durante horas a fio, sem mover um músculo. Acaba por se sentir sufocado, sem espaço, a ter uma identidade difusa. Num diálogo com Stella, parte de um roteiro primoroso, lança uma das memoráveis falas:

Diz-me, em que preciso momento é que um indivíduo deixa de ser o que pensa que é? Cortas-me o braço. Digo ‘Eu e o meu braço’. Cortas-me o outro braço. Eu digo ‘Eu e os meus dois braços’. Tu tiras-me o estômago, os rins, presumindo que isso era possível e eu digo, ‘Eu e os meus intestinos’. E, agora, se me cortares a cabeça, eu diria ‘Eu e a minha cabeça’ ou ‘Eu e o meu corpo’? Que direito tem a cabeça de se apelidar eu mesmo?

De uma forma psicótica, Trelkovsky começa a se identificar com Simone Choule. Em meio a uma crise neurótica, acredita que os moradores do prédio conspiram para enlouquecê-lo. A partir de certo momento, os eventos deixam de ser exibidos pela perspectiva do protagonista, passam a ser expostos de acordo com o que vêem os vizinhos. Um processo chocante de loucura vem à tona, então, culminando num final surpreendente e estarrecedor. A grande utilização de sombras e tons escuros pelo fotógrafo Sven Nykvist, que acompanhou diversos filmes do gênio Ingmar Bergman, compõe um visual pesado e mórbido que se adequa à sensação reinante de paranóia. Polanski era amigo de Stanley Kubrick, ambos se admiravam. O primeiro se encantou com
Barry Lyndon, enquanto o segundo ficou fascinado com este O Inquilino. Assim, em mútua homenagem, Polanski realizou Tess, sob influência do épico, enquanto Kubrick rodou O Iluminado, thriller psicológico, também excelente, influenciado pelo franco-americano. A estréia dos dois foi praticamente simultânea.

Thales Azevedo.

Um comentário:

Lucas Caires disse...

Estou com "O inquilino" para assistir. sem contar com o clássico "Bebê de rosemary". Um pecado ainda não ter assistido. Bom texto!