terça-feira, 21 de outubro de 2008

Bush: Missão Cumprida

Entre a eleição americana em 4 de novembro e a posse do novo presidente, o mundo ainda terá 77 dias de George W. Bush.

Felizmente, Bush não vai escapar tão fácil da História: no mundo das imagens, ou da "indústria cultural", como inventaram Horkheimer e Adorno, Bush acaba de ser escancarado para o grande público no ótimo "W.", novo filme do diretor Oliver Stone ("JFK", "Doors", entre outros). Com uma espetacular e comovente atuação de Josh Brolin no papel do presidente

Mesmo sem ser antipático a Bush (ao contrário), o filme acaba funcionando como mais um prego no caixão do presidente e de sua família, há 200 anos ciscando ao redor do poder nos EUA.

É também um tapa na cara dos americanos que o elegeram duas vezes. Na segunda, por sinal, Bush e os republicanos tiveram uma vitória completa em 2004: no voto popular, no Colégio Eleitoral, na Câmara e no Senado e na maioria dos Estados.

Entre a reeleição de Bush e o final de seu segundo termo agora, os EUA passaram do auge do unilateralismo, da arrogância e do uso da força para um apelo para a cooperação internacional sem precedentes. Se países falissem, a América de Bush seria o mais espetacular caso de quebra da história contemporânea.

Em quatro anos, a sorte dos EUA e de Bush mudaram da água para o vinho, com forte impulso negativo dado pelo comando presidencial e seu pequeno e obtuso núcleo de poder.

Em 2003 e 2004, tive o privilégio de acompanhar em Washington tanto os fatos que precederam a Guerra do Iraque quanto, mais à frente, a reeleição de Bush.

Os EUA eram outro país. Os grandes jornais acreditavam piamente em quase tudo o que o presidente dizia. As pessoas estocavam água, alimentos e pilhas em suas casas a cada sinal de uma nova catástrofe terrorista. O Patriot Act permitia o monitoramento de milhões de telefonemas entre americanos comuns, e o governo enchia a atmosfera com o mais potente medo que pudesse criar.

Assim Bush se reelegeu, ludibriando os fáceis de ludibriar norte-americanos médios com histórias de terror.

O filme de Stone é apenas um sinal do fim melancólico da era Bush. Os então todo-poderosos assessores do presidente --com poder para gravar, interrogar e prender-- são agora expostos de forma inimaginável há quatro anos. A ponto de o principal jornal gay (e gratuito) de Washington, "Blade", questionar em manchete nesta semana: "Is Condie Gay", em referência à nada menos que a secretária de Estado dos EUA, Condollezza Rice -- solteirona assumida como o nosso prefeito Kassab.

Os anos Bush também deixaram que uma indelével rachadura aparecesse na maior economia do mundo. Descobriu-se que os EUA mal teriam crescido nos últimos cinco anos não fosse a propulsão do consumo. Surpresa: ele era financiado por créditos sem lastro que giravam no vazio. O país está quebrado.

A nação mais rica(?) e militarmente poderosa está de calças curtas ao final do reinado de Bush. Mesmo a solução mais coerente para a atual crise --injetar capitais diretamente nos bancos-- partiu de além-mar, do Reino Unido, e foi replicada nos EUA. É tudo incrível.

Mas, por mais extraordinário que pareça, com sua arrogância e ignorância, Bush talvez tenha prestado um imenso serviço.

Se os EUA crescerem muito próximo de zero nos próximos dois ou três anos, o que é muito possível, o tamanho da economia chinesa terá passado de 1/3 da americana para mais da metade. Outros vários emergentes também ganharão nacos maiores nessa participação global.

Ao menos em termos econômicos, o mundo será outro.

Esse talvez seja o principal legado de Bush.

Fernando Canzian, colunista da Folha.

Alexandre Rios.

4 comentários:

Thales Azevedo disse...

Do sensacionalismo à mentira deslavada, do antiamericanismo ao flerte com tiranias, o texto é um reflexo do mecanismo de demonização republicana, principalmente quando se trata de George Bush – desmentindo mais uma vez a tese esdrúxula de que a grande imprensa é conservadora, de direita ou coisas do tipo. Infelizmente o método não é exclusividade brasileira e alavancou a campanha do democrata Barack Obama, favorito na disputa pela presidência. Missão cumprida?

A guerra do Iraque – e é ela, quase sempre, o grande alvo – nada tem de auge do unilateralismo. Afirmar isso é ignorância ou menosprezo pela inteligência do leitor. A decisão foi, sim, unilateral. Mas pela primeira vez na história americana, o presidente tentou o quanto pôde obter a solidariedade internacional. E da parte da ONU, não houve veto algum. O fato é: os Estados Unidos sempre agiram por conta própria, sem jamais pedir aprovação para seus atos. Bem como os soviéticos. Basta estudar história. Bush foi, sim, uma exceção e tentou até o último minuto conseguir o aval da comunidade internacional para suas pretensões. Contrariou as expectativas de uma resposta violenta e imediata, passou 26 dias tentando provar que Bin Laden era o autor dos ataques. Cobravam uma prova cabal. Ela só chegou, na forma de vídeo, tempos depois. Sem contar com outra realidade: houve, sim, coalizão – vide Inglaterra e Tony Blair.

Sobre a crise, pela milésima vez, não passa de oportunismo e desonestidade tentar jogar a culpa na Casa Branca. Isso já foi discutido no blog. É uma crise dos países ricos, ocorre de tempos em tempos, a longo prazo não é necessariamente ruim.

O “imenso serviço” da multipolaridade acentuada – que, e lá vamos nós, não é serviço de Bush coisa nenhuma? Comemorem um Irã que continua a desenvolver projetos nucleares protegido por Rússia e China, uma Venezuela que caminha para a ditadura explícita ancorando-se nos russos, a aceitação tácita de que a democracia é apenas uma escolha entre outros sistemas aceitáveis e eficientes, para citar um texto do Reinaldo Azevedo. O que importa, a qualquer custo, é quebrar o império. A última coluna do Diogo, por sinal, também se relaciona ao tema. Segue um trecho, para finalizar:

“Alguns dias atrás, o presidente iraniano, Mahmoud Ahma-dinejad, anunciou o fim do capitalismo. É um retorno a Bucareste, 1965. Num lugar em que falta carne, em que falta sabonete, em que falta gasolina, o tirano ainda promete triunfar sobre o império americano. Além dos iranianos, dos venezuelanos, dos indianos, dos coreanos e dos brasileiros, os próprios americanos compraram a idéia de que os Estados Unidos caminham rapidamente para a ruína. [...]

Em 4 de novembro, os Estados Unidos escolhem o presidente. Uma parte dessa histeria pré-fabricada, eleitoreira, se dissipará. Os americanos devem retomar rapidamente o comando. Quem sabe decidam até bombardear as usinas nucleares iranianas.”

George Bush fez muitas trapalhadas? Sim, fez. A condução da guerra foi repleta de equívocos. Mas reconheçamos os seus méritos, não tão remotos quanto querem tantos – o combate ao terror é possivelmente o mais notório, e reconheçamos a verdade.

Ah, não poderia esquecer: Oliver Stone é um grande babaca, péssimo diretor e o seu W. teve uma estréia constrangedora.

Alexandre Rios disse...

"Mas reconheçamos os seus méritos, não tão remotos quanto querem tantos – o combate ao terror é possivelmente o mais notório, e reconheçamos a verdade."

Ao ler coisas desse tipo me sinto como uma criança na tentativa de ser enganada pelo primo mais velho.

O terror - durante toda a história do século XX e XI - está, antes de tudo, ligado às atitudes imperialistas diversas, o que inclui as contínuas interferências americanas em Estados, desrespeitando supremacias e povos. Pode perguntar ao seu professor de história.

E o governo Bush, nesse sentido, foi explícito. Afirmar que o ele fez em seu mandato foi, em primeiro lugar, uma missão civilizadora é obsceno, uma agressão ao leitor deste blog.

Lucas Caires disse...

Pulando o momento "crise mundial" para o resumo da obra bizarra da "Era Bush". O texto é reflexo não de um sensacionalismo anti-americanista, mas sim da realidade que os EUA passaram durante esses 8 anos. Não me refiro da crise atual. Refiro-me à perda de mercado que os EUA tiveram devido a uma preocupação com uma guerra, diga-se de passagem, sem lógica. O crescimento mísero levou à perda dos mercados para os asiáticos. Quanto à guerra, basta estudar história para observar o histórico de massacres que os EUA provocaram no Oriente Médio. Quando vimos 2 aviões entrarem no símbolo capitalista, WTD, lembramos dos mais de 1 milhão de árabes mortos provocados pela 1ª e 2ª guerra de judeus contra muçulmanos - 1948 e 1956, respectivamente? Alguém culpou o imperialismo americano por querer implantar a força um Estado capitalista neoliberal no Oriente Médio - Israel? Infelizmente, não.
Não nego a razão de resposta ao ataque de 11 de setembro. Todavia precisamos fuçar a história para vermos as razões dos árabes. Quanto à política externa, Bush, inteligentemente, tentou atrair os países ocidentais para a luta contra o terror. De certa forma conseguiu o que queria, mas até hoje não provou a presença de bombas nucleares no Iraque. Será que estão enterradas, junto com Osama, nas montanhas rochosas do Iraque?
Agora já é tarde responder a essa pergunta. Os ianques já implantaram suas indústrias petrolíferas no país, mataram milhares de iraquianos e multiplicaram o capital dos banqueiros e indústrias belicistas.
A bola da vez é o Irã, ameaça nuclear ao “mundo”. Mas ninguém olha para o próprio umbigo. A Guerra Fria foi suficiente para Tio Sam produzir bombas nucleares capazes de destruir, generosamente, 5 “Terras”.
Desta forma, perguntemos a uma americano se a luta contra o “Terror” foi compensatória. Os dados econômicos e éticos mostram que não.
PS: para completar as trapalhadas “Bushianas”, o próprio, no discurso do mês passado, não comentou nada sobre a crise. Falou mais uma vez sobre o Terror.

Thales Azevedo disse...

Antes de um embate civilizatório, a guerra do Iraque foi em nome da segurança global. Que, sejamos ou não favoráveis a ela, isso fique claro. Democracia não se impõe? Tudo bem, eu concordo. Mas quais são e quais eram as alternativas? Aguardo ansiosamente.

O estupro ocorrido no histórico 11/09 ao império americano só se deu por existir uma estrutura por trás de gente como Osama Bin Laden. Gente que é capaz de tudo pelo singelo objetivo de dizimar a mais importante democracia do planeta. Pela ausência de maiores atentados de lá pra cá, pelo fim do genocida que implementou um dos regimes mais violentos do mundo e potencial aliado do terrorismo chamado Saddam Hussein, pode-se dizer: nada foi em vão.

É descartável a hipótese de Bush e Blair terem mentido sobre armas de destruição em massa, criando um falso pretexto para a invasão? Não. Mas os próprios generais de Saddam se surpreenderam quando nada foi encontrado. Ele fazia questão de induzir o mundo a pensar que havia o arsenal e criou todas as dificuldades que pôde para as inspeções da ONU.

Essa conversa de "razão dos árabes" vai do ridículo ao bárbaro. Ninguém tem razão ao seqüestrar um avião e derrubar um prédio. Ninguém tem razão ao dizer que precisa varrer um país do mapa. Israel, que foi atacado e reagiu, que luta porque se nega a gritar e morrer - enquanto seu adversário o faz por negar seu essencial direito de existir, tendo por princípio eliminar civis e praticar atentados para impor pontos de vista, é a única democracia do oriente. Tem a tarefa urgente de proteger seus cidadãos. E, caso os Estados Unidos não o façam, de impedir que o Irã venha a ter armamentos nucleares.

O fim da picada, aliás, foi a comparação, em nome da ética e da igualdade - ainda que falemos de realidades brutalmente desiguais, entre os armamentos americanos e iranianos. E defender a tese de que se os Estados Unidos têm, o terrorismo também pode ter. O planeta duraria... uma semana?

Sobre a política externa de Bush, bem, os países ocidentais, não tão inteligentemente, se recusaram a defender o ocidente. Mas não adianta responsabilizar exclusivamente os republicanos, esses vilões da humanidade, pelo endosso dos argumentos. Não foram poucos os democratas, muitos, hoje, cínicos, que votaram pela intervenção.

Bush usou o terror como cabo eleitoral, fez discursos com tons messiânicos, baboseiras similares? Fez, e lucrou muito. Mas lutou contra, o que é inegável e imprescindível. Além de ter cortado impostos, aberto a economia e outros assuntos que alongariam demais a discussão.

Nas jornadas da paz de tempos passados, um exemplo clássico: o então primeiro-ministro britânico Chamberlain, Barack Obama da década de 30, decidiu participar de uma conferência em Munique convocada por Hitler. Cedeu a exigências, como os Sudetos, e o fez apenas assinar um papel que definia esta como sua última reivindicação territorial. As multidões, e certamente muitos de hoje estariam com elas, foram ao delírio com o amigável resultado. Passa-se o tempo, Hitler se fortalece, toma o que faltava da Tchecoslováquia, invade a Polônia. Um certo Churchill, debochado, diria a célebre frase: "entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra".

O terror tem de parar. O resto, sim, é antiamericanismo vagabundo.