sábado, 22 de março de 2008

Crimes e Pecados


‘Crimes e Pecados’, de 1989, é um perfeito equilíbrio entre o drama e a comédia, mais precisamente entre a culpa e busca por renovação nas vidas dos personagens. Aliás, todos eles parecem estar em processo de reciclagem em seus universos particulares. Woody Allen, mais conhecido por seus filmes cômicos, realiza um filme profundo, filosófico, com toques de humor que só ele sabe fazer.

A trama faz um paralelo entre as histórias dos dois protagonistas, Judah Rosenthal (Martin Landau) e Cliff Stern (Woody Allen). Judah, bem-sucedido oftalmologista nova-iorquino, vê a segurança de sua vida familiar em risco quando sua amante, Dolores Paley (Anjelica Houston), decide revelar para a senhora Rosenthal o adultério do marido, que dura dois anos. Judah, angustiado e pressionado, procura seu irmão Jack, arquiteto de crimes, para dar um fim à vida de Dolores, esperando terminar com o sofrimento e instabilidade emocional que tanto o aflige. O serviço é feito, mas a culpa parece seguir Judah a todo o momento, onde quer que esteja. As lembranças de sua relação com Dolares, somada à moral religiosa, que ele não parecia dar muita importância, vêm à tona e provocam no médico crises éticas, moldando um caráter que ele não parecia ter.

Por outro lado, Cliff Stern é um típico personagem encarnado por Woody Allen. Ele é um fracassado cineasta, que é levado a produzir um documentário sobre a vida do seu cunhado Lester (Alan Alda), egocêntrico e fútil, porém bem-sucedido produtor de televisão. Cliff, em meio à produção do documentário, que dará a ele recursos suficientes para realizar um filme sobre o filósofo Louis Levy, conhece Halley Reed (Mia Farrow, que já foi esposa de Allen) e se apaixona, tornando-se rival de Lester na tentativa de conquistar Halley.


Aliás, as mensagens que Louis Levy passa para o documentário de Cliff ajudam a resumir a essência de Crimes e Pecados: "O fato único que ocorreu com os primeiros israelitas é que eles conceberam um Deus que ama. Ele ama, mas ao mesmo tempo exige um comportamento moral. E aí está o paradoxo. Qual é a primeira coisa que esse Deus pede? Esse Deus pede a Abraão que sacrifique seu único filho, seu bem-amado filho. Ou seja, apesar de milênios de tentativas, ainda não logramos criar a imagem de um Deus amoroso e benévolo. Isto está além da nossa capacidade de imaginação. "

O que se percebe, então, é que o filme procura estabelecer relações entre os pecados e a análise ética moldada pela sociedade, desde os primórdios até a atualidade. O foco maior está, sem dúvidas, em Judah, sendo comparada com a trama do protagonista de ‘Crime e Castigo’, do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Ele vaga pelas ruas de sua cidade, relembrando do seu passado com sua família judaica, das crenças pregadas desde a sua infância e que, agora, parecem ter mais sentido, ainda que de forma contraditória. Judah questiona a existência de Deus, que não o puniu pelo crime brutal que cometeu, em um memorável diálogo entre ele e Cliff, já no final do filme.

Na cena, o personagem de Woody Allen, em processo de separação com sua esposa, fica arrasado ao saber que Halley, em uma estadia na Europa durante quatro meses, torna-se noiva de Lester, deixando-o confuso, já que eles pareciam se identificar plenamente pelos prazeres em ver filmes, filosofar, discutir sobre literatura e, até mesmo, nas críticas ao tosco produtor Lester. As convenções estão sempre em mutação, e Cliff se dá conta disso. Resta a ele sentar em um sofá, sozinho e refletir em meio à festa de casamento da filha de outro cunhado seu, Ben. Nesse momento, entra em cena Judah e eles passam, então, a conversar. De um lado, um individuo quase ingênuo, idealista, que tem como um dos maiores prazeres ver filmes quase que diariamente com sua sobrinha. De outro, um indivíduo rico e pragmático, que acredita estar sobrevivendo na sociedade baseada em valores que ele procura se apegar para ter uma vida normal, ainda que repleta de mentiras – nesse caso, a moral é dúbia, beirando o realismo.



-lsolado da festa? É como eu.
-Sempre fico triste nestas ocasiões.
-Parece imerso em pensamentos.
-Planejava o assassinato perfeito.
-Roteiro para um filme?
-Filme?
-É. Foi o que o Ben me disse, que você faz filmes.
-É, mas não desse tipo. De outro tipo.
-Tenho uma ótima história de assassinato.
-É?
-Um grande roteiro. Acho que bebi demais. Desculpe, vou deixá-lo sozinho.
-Não, tudo bem. Não estou fazendo nada.
-Mas minha história de assassinato tem um estranho desenlace. lmagine este homem muito bem-sucedido. Ele tem tudo. E após cometer esse ato horrível, ele começa a ser perseguido por uma culpa profunda. Ecos de sua educação religiosa, que ele sempre rejeitou,começam a surgir. Ele ouve a voz do pai, imagina que Deus vigia todos os seus passos. De repente, o Universo não é mais vazio... Ele é justo e tem uma moral. E ele a violou. Agora, ele está apavorado, está no limiar de um colapso nervoso, perto de confessar tudo para a polícia. Então, um dia, ele acorda. O sol está brilhando e sua família está ao seu redor. Misteriosamente, a crise desapareceu. Ele leva a família para a Europa, e descobre, com o tempo, que não foi castigado. Ao contrário, prospera. O crime é atribuído a outro, um vagabundo que já matou outras pessoas. Uma a mais não importa. Agora, ele está livre. Sua vida volta completamente ao normal, ao seu mundo seguro de riquezas e privilégios.
-É, mas ele pode mesmo voltar ao que era?
-Bem, as pessoas carregam seus pecados consigo. Às vezes, o que fez o atormenta, mas passa. E com o tempo, tudo acaba.
-Mas, então, suas piores crenças se realizam.
-Bem, avisei que era uma história mórbida.
-Não sei. Acho que seria difícil alguém viver com isso. Poucas pessoas poderiam viver com isso na consciência.
-Muitos carregam erros terríveis consigo. O que queria que ele fizesse? Que se entregasse? lsso é a realidade. Na realidade, racionalizamos. Nós negamos. Senão, como continuar vivendo?
-lsto é o que eu faria. Faria com que se entregasse. Assim, a sua história tomaria proporções trágicas, porque, na ausência de Deus, ele tem de assumir a responsabilidade. Aí, você tem a tragédia.
-Mas isso é ficção. É cinema. Vê filmes demais. Estou falando da realidade. Se quer um final feliz, vá ver um filme de Hollywood...


‘Crimes e Pecados’ é uma obra-prima, um dos melhores filmes de Woody Allen. Ele representa um divisor de águas da carreira do diretor e roteirista, consolidando uma nova tendência do seu peculiar cinema, com uma temática que beira a tragédia. Com muita maturidade, ele ainda faria um filme semelhante em 2005. Em ‘Match Point’, ele recicla a história, moldando-a em outro contexto, na Europa e com personagens mais jovens. A história é fria e nos faz refletir outra vez sobre crimes e pecados que realizamos ou que podemos realizar em determinadas circunstâncias, realizando esse objetivo com muito sucesso.

Assim como o filme, terminarei o texto com outro pensamento humanista do professor Levy, talvez a passagem mais importante de toda a narrativa...

Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas têm grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuímos um sentido a um universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos, parece ter a habilidade de continuar lutando, e até de encontrar prazer nas coisas simples como sua família, seu trabalho, e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior.


Alexandre Rios.

Um comentário:

Thales Azevedo disse...

Woody Allen em sua melhor forma.