quinta-feira, 21 de maio de 2009

Falemos patrioticamente mal as línguas dos outros!

É impressionante como, com o passar dos anos, tenho me tornado uma pessoa mais aberta ao meu país. Cada vez mais sou nacionalista, e estou gostando disso. Sem exageros, claro, porque todo nacionalismo exacerbado é o mesmo que uma estupidez inflada e vazia ao mesmo tempo. Quero que o meu país seja cada vez mais respeitado e me vejo no direito de tentar fazer a minha parte – porque toda nação digna é essencialmente patriótica. Qual Império possuiu um espírito desnacionalizado da população? Nenhuma, amigos leitores! Muitos poderão exclamar “mas o Brasil é um nada, não merece meu orgulho!”. Ora, como tornar uma nação que dê orgulho ao povo, que represente o povo, sem o trabalho árduo deste mesmo povo para corrigir os erros e evoluir?

Lendo “A Correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queiroz, deparei-me com este trecho – um dos melhores da obra – absolutamente brilhante e que pode ser de muito valor para essa reflexão. O trecho encontra-se na segunda parte do livro, com as cartas do progonista Fradique Mendes – que é, segundo o narrador, um homem cuja “forma é um mármore divino com estremecimentos humanos”. Deliciem-se, amigos leitores – se é que existe algum!

"Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra; todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna com as suas influências afetivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caráter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo.

[...] Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Há aí, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o vocábulo. Ora, isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável – ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas, e tenta uma instalação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma.

[...] Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos – que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei eram sons da Natureza bruta, pouco diferenciáveis do coaxar das rãs, ou de um estalar de madeira. Pois, quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscou, desejava os seus ovos, esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! co-có-ri-qui! có-rócó-có! Nunca, em cidade ou região inteligente do universo, minha tia deixou de comer os seus ovos – e superiormente frescos!"

Alexandre Rios

3 comentários:

thales disse...

À parte o conteúdo humorístico - e nisto a primeira frase vale mais que quase tudo o que já foi publicado por aqui nos últimos tempos, e as quase tentações subliminares de pular de Fradique Mendes para Policarpo Quaresma, acescento:

"Indivíduos inteligentes costumam maldizer sua pátria. É natural. Quando leio ou ouço alguém que respeito falar mal do Brasil compreendo e faço coro. Você me verá fazer o mesmo aqui. Não quer dizer que os outros países sejam a Bahamas da civilização artística e intelectual, muito embora não consigamos nem ombrear a medianidade de um Estados Unidos, para citar um país civilizado descoberto na mesma época que a nossa.

Você encontra críticas violentíssimas de intelectuais americanos, ingleses, italianos, espanhóis, franceses contra suas pátrias. O que isso representa? Insatisfação crônica? Antinacionalismo forçado? Nada disso. É um amor profundo, um amor desmedido, que não aceita a mediocridade, a burrice monumental, a ignorância satisfeita, a palidez intelectual. E esse amor, como qualquer amor, cobra o empenho, o esforço, a melhora, o desenvolvimento. A crítica ao próprio país carrega consigo um amor incompreendido pela malta, que não é senão a razão, os alicerces que sustentam e justificam a crítica."

(Bruno Garschagen)

Alexandre disse...

Criticar faz parte do processo de construção do país, obviamente. Além disso, reconhecer os acertos e as coisas boas é outro passo interessante.

Anônimo disse...

Precisamente o Eça era um grande crítico do seu país.

Eça é que é Eça.