domingo, 11 de janeiro de 2009

Top 10 - Vilões do cinema

O que seria do cinema sem a maldade? No mínimo, seria muito menos interessante. Ou melhor, seria completamente desinteressante, já que a maldade existe no mundo e nos acompanha desde sempre. Nós, quando crianças, já tomamos conhecimento de que há vilões ao nosso redor. Apesar do medo, o encantamento que eles provocam em todos nós é inegável. “O que levou ele a ser tão malvado?” é uma das perguntas que fazemos a nós mesmos na infância. Aos poucos, percebemos que a coisa é muito mais complexa, afinal, todos nós podemos ter nossos momentos de vilões, até sem querer. Isso faz parte da índole do ser humano, da complexidade que fazem de nós seres distintos. E quanto ao cinema? Bom, ele deve muito aos vilões. As interpretações dos atores cujos vilões são marcantes merecem ser sempre reconhecidas e aplaudidas por todos nós que admiramos a cultura da chamada sétima arte. É para homenageá-los que nós apresentamos o primeiro Top 10 do blog.

Hannibal Lecter - “Hello, Clarice.” (O Silêncio dos Inocentes)

Quando pensamos em serial killer no cinema, logo nos vêm à mente o personagem da vida de Anthony Hopkins, Hannibal Lecter. Mesmo aqueles que nunca viram “O Silêncio dos Inocentes” conhecem a figura marcante de um dos ícones da cultura cinematográfica americana. O doutor Lecter é quase um gentleman. Culto, fala sem pressa e mede bem suas palavras, como se estivesse dissecando uma das suas vítimas, aprecia música clássica e uma boa culinária – no seu caso, ele prefere carne humana. Não é à toa que ele é conhecido como “Hannibal, the Cannibal”, dentro do meio policial. E é de lá que emerge a personagem de Jodie Foster – outra vez, a personagem da vida – Clarice Starling. Ela precisa do conhecimento maligno – um bom adjetivo, sem dúvidas – de Hannibal para descobrir onde se encontra o serial killer “do momento” conhecido como “Buffalo Bill”. Na tentativa de obter informações de Lecter, Clarice entra numa jornada de autoconhecimento, que vai determinar para sempre sua vida.

Coringa – “Come on, I want you to do it, I want you to do it. Come on, hit me. Hit me!” (Batman – The Dark Knight)

O Coringa é, como ele próprio se define, um agente do caos. Um ser sem passado (e que, por isso mesmo, gosta de contar diversas histórias sobre como adquiriu as suas cicatrizes na boca) e que está no mundo apenas para ver o circo pegar fogo. Toda sua loucura e imprevisibilidade é realçada ainda mais pela atuação magistral de Heath Ledger, que conseguiu pegar um vilão já consagrado das histórias em quadrinhos do Batman e elevá-lo a um patamar superior, transformando-o num dos personagens mais amedrontadores e fascinantes vistos no cinema. Aí, eu lhe pergunto : “Why so serious?”

Frank Boot – “Baby wants to fuck! Baby wants to fuck Blue Velvet!” (Veludo Azul)

Frank Booth, interpretado por Dennis Hopper, talvez seja o vilão mais bizarro desta lista. Afinal, ele é um maníaco sexual que praticamente escraviza a protagonista do filme, Dorothy Valles , obrigando-a a realizar seus desejos carnais mais obscuros sem que ela olhe para o rosto dele – “Don´t you fucking look at me!” -, utilizando muitas vezes uma máscara de nebulizador aterrorizante. O personagem representa algo completamente oposto ao aparente clima de normalidade de uma cidadezinha chamada Lumberton, no interior dos Estados Unidos, que confronta diretamente com o protagonista/herói da história, o bom-moço Jeffrey Beaumnont. Frank Boot representa o que há de mais controverso na personalidade humana, dentro de um sub-mundo bizarro e cruel. E de bizarrice o diretor David Lynch entende como poucos...

Jack Torrance – “All work and no play make Jack a dull boy”. (O Iluminado)

A representação da progressiva degeneração mental de um homem trancafiado, a trabalho, com sua mulher e um pequeno filho com dons sobrenaturais em um hotel coberto de gelo, isolado de qualquer vestígio de civilização, dominado por forças misteriosas. É Jack Nicholson, com sua espontânea e brilhante capacidade de incorporar a esquizofrenia, ao lado do gênio absoluto, conhecido por perfeccionismos e peculiaridades, Stanley Kubrick, em O Iluminado. Delírios repletos de paranormalidade entram em cena, com toques missionários, sede de violência e ele, o machado, nesse que é um dos grandes clássicos do terror.

Rev. Harry Powell – “ I can hear you whisperin' children, so I know you're down there. I can feel myself gettin' awful mad. I'm out of patience children. I'm coming to find you now.” (O Mensageiro do Diabo)

O reverendo Harry Powell – interpretado soberbamente por Robert Mitchum - é, sem dúvidas, um dos vilões mais clássicos da história do cinema. O que dizer da sua famosa apresentação em que ele confronta os lados do Ódio e Amor escritos nos seus dedos – HATE na mão esquerda e LOVE na mão direita -, “lutando” uma mão contra a outra? Harry Powell, com muito carisma, ensina a todos como um homem de religião devota: “Agora vejam e eu lhes mostro a história da vida: estes dedos estão sempre em guerra e lutando uns contra os outros. Agora vejam-nos...O Ódio da mão esquerda lutando, e parece que o Amor está perdido... Mas esperem! Ora essa, o Amor está vencendo! Sim, senhor, o Amor venceu!”

Apesar de andar citando trechos da Bíblia e dar lições de moral, Harry Powell é, na verdade, um grande golpista que se aproveita de viúvas para dar golpes sucessivos. Assim é a sua vida. Com muito carisma ele conquista a confiança das pessoas e, com uma personalidade digna de serial-killer, dá o bote, sem demonstrar nenhum arrependimento, até mesmo se for preciso matar crianças. E são duas elas, em
“O Mensageiro do Diabo”, as heroínas da história, que confrontam o reverendo para que ele não tome posse das posses roubadas pelo pai delas, Ben Harper. E fazem isso mesmo que precisem fugir sem destino definido...

Darth Vader – “I have you now!” (Star Wars)

Darth Vader é o vilão mais pop do cinema e um dos melhores elementos de Star Wars (juntamente com o Han Solo de Harrison Ford); ele é tudo aquilo que um vilão espera ser e dificilmente conseguirá. A transformação de Anakin Skywalker no Lorde Sith é algo fascinante de ser acompanhado ao longo dos filmes, mostrando bem de onde vem toda a sua maldade. Sua presença na tela é impressionante, com a voz metálica e pausada, sua respiração característica e uma armadura preta imponente, sendo impossível o telespectador olhar para outra coisa quando ele aparece em cena. Além disso, ele é responsável por uma das cenas antológicas do cinema, ao revelar que é o pai de Luke Skywalker no final de “Star Wars Episódio V : O Império Contra-Ataca” (o melhor filme da série, diga-se de passagem).

Alex – “Welly, welly, welly, welly, welly, welly, well. To what do I owe the extreme pleasure of this surprising visit?”(Laranja Mecânica)

Para alguns, ele é um vilão. Para outros, uma espécie de anti-herói. O que parece ser consenso é que Alex de Large é uma das figuras mais impressionantes que o cinema já ofereceu. Um fenômeno pop. Um fruto do caos moderno previsto por Anthony Burgess e adaptado para as telas pelo gênio Stanley Kubrick. Como o Coringa de Batman – The Dark Knight -, Alex é um exímio causador do caos. Por que ele faz isso? Pra se divertir, claro! A ultraviolência pregada por Alex causa sensações diversas, não sabemos se rimos ou choramos de raiva, não temos certeza se amamos o personagem ou se sentimos por ele desprezo. No final das contas, sentimos um pouco de tudo isso, o que torna o personagem absolutamente fascinante. Com as memoráveis músicas de Beethoven nos deliciamos com as cenas fantásticas de Laranja Mecânica, presenciando a jornada de Alex em uma sociedade decadente nesse polêmico filme que é obrigatório para todo bom cinéfilo.

Norman Bates – “A boy's best friend is his mother.” (Psicose)

Anthony Perkins é o ator de um papel só. Porém, o único papel grandioso que ele fez, é o que o fará ser lembrado por gerações de cinéfilos: o de Norman Bates, o psicótico e frio atendente de hotel do filme “Psicose” de Alfred Hitchcock. Não fosse pela atuação magistral de Perkins e pela direção brilhante do “mestre do suspense”, Psicose não seria metade do que é hoje. O personagem de Norman Bates é tratado de forma surpreendente pelo roteiro bem construído, um homem carismático e que aos poucos nos revela a sua verdadeira natureza (convenhamos : um cara que mata suas vítimas vestido igual à sua mãe não é algo que se vê todo dia no cinema). A cena do banheiro é uma das mais famosas do cinema e já foi imitada em diversas outras produções. Sem dúvidas, Norman Bates é um vilão fabuloso, pertencente a um dos melhores filmes de Hithcock.

Eve Harrington – “If nothing else, there's applause... like waves of love pouring over the footlights.” (A Malvada)

Eve é, como diz um dos personagens de A Malvada, “uma garota de inúmeras qualidades”. Ela é meiga, batalhadora, educada, atenciosa, humilde... Ou melhor, aparentar ser. Eve, interpretada por Anne Baxter, usa uma máscara. No fundo, ela é o tipo de garota (a única vilã da lista, diga-se de passagem) que faz de tudo para conseguir o que quer, mesmo que para isso tenha que arruinar a carreira da atriz que ela mais idolatra, Margo Channing, interpretada pela lendária Bette Davis. O contexto do filme é o teatro, mostrando de forma ácida, basicamente, os bastidores de todo um ambiente cercado por interesses e disputas de ego. A transformação de Eve no filme é gradual, de boa-moça a vilã definitiva. Na fase final da transformação de Eve, já prenunciada com Margo na frase mais clássica do filme: “Apertem os cintos, será uma noite turbulenta!”, temos medo quando o monstro interior de Eve vem à tona. No final das contas, concluímos que nem sempre as pessoas são o que aparentam ser.

Max Cady – “Every man... Every man has to go through hell to reach paradise.” (Cabo do Medo)

Catorze anos dentro das grades proporcionaram forças físicas e mentais, alavancaram a psicopatia e alimentaram um brutal desejo de vingança em Max Cady, da refilmagem realizada por Martin Scorsese de Cabo do Medo. Enquanto ocupa-se em se tornar letrado e indestrutível, o vilão descobre que seu advogado não usou os argumentos que poderia para amenizar a sua punição e resolve persegui-lo obsessivamente depois de livre, atingi-lo de todas as formas possíveis, promovendo o caos em sua casa, seduzindo a sua filha adolescente, dominando mecanismos judiciais para se blindar. Não há diálogo ou possibilidade de acordo, não há interesse em extorsão, não há nada que o faça parar. É um homem guiado pela ira, a proclamar o terror como único objetivo de vida.

13 comentários:

Laíla disse...

Muito legal. Apesar de ainda não ter visto todas essas figuras malignas em ação, eu devo concordar que todas merecem um lugar nesse Top 10 totalmente from hell! E ainda bem que ninguém esqueceu do Coringa. Simplesmente perfeito!

Thales Azevedo disse...

Por mim, teríamos "esquecido" do Coringa, hehe.

Marina Munhoz disse...

Concordo... "Teríamos esquecido o Coringa" e colocaríamos o HAL 9000 no lugar. Não têm medo dele? Eu tenho!

Guilherme Vasconcelos disse...

Legal o texto e as escolhas. Só senti falta do Daniel Plainview de Sangue Negro, soberbamente interpretado pelo Day Lewis. Aliás, ele entraria fácil no lugar do Jack Torrance, um personagem pouco desenvolvido e pouco assustador. Sem contar que a atuação do Day Lewis é muito superior à de Nicholson.

Outro que poderia entrar sem maiores discussões é Clarence Boddicker, vilão do ícone dos anos 80, Robocop. Qual vilão é mais caricato, bem humorado e unidimensional que ele? "Dá uma mãozinha a ele.."

Pra terminar, o Coringa tinha que estar na lista. É um personagem muito mais fascinante, complexo e amendrontador que - de novo - Jack Torrance. Seus já antológicos aforismos e a sua perspicaz percepção da loucura e da tênue linha que separa o bem do mal credenciam-no para qualquer lista dos maiores vilões do cinema.

Túlio disse...

Bela lista, mesmo sem conhecer alguns desses senhores (e senhora). E eu não sei se classificaria o Vader simplesmente como um vilão... Pra mim ele é mais complexo que isso, já que, pelo que sei dos outros, é o único que se redime espontaneamente dessa lista. Claro que isso não desfaz todo o seu passado, mas...

Alexandre Rios disse...

Sobre o Jack Torrance, eu também acho que ele foi mal desenvolvido pelo Kubrick. Apesar disso, ele participa de cenas antológicas, como essa do machado na porta. Bom, o Daniel Plainview poderia estar também na lista, assim como o HAL 9000 ou Anton Chigurh, de Onde os Fracos Não Têm Vez...

Anônimo disse...

Que tal Annie Wilkes (Kathy Bates) de Louca obsessão?

rebecca disse...

Gostei da lista. Mas não acho que jack do iluminado seja um vilão. Ele, assim como Alex, são, para mim, anti-heróis. Não se tem lados, ou definições em o Iluminado, é o ser pelo ser. Talvez o ambiente e a predisposição a disturbios sejam os verdadeiros vilões. Alex é, como o proprio Anthony Burgess afirmou, "a heresia de uma idade da razão" a contradição em pessoa!(talvez isso explique esse sentimento de amor e odio pelo personagem) não o vejo como vilão!
Bem o coringa é meu vilão favorito da lista. "Some men just want to watch the world burn." acho que Alfred fala por todos nós =D . Quanto a um detalhe que admiro nos viloes, suas vestimentas, Darth Vader é o campeão! Já o vilão de lynch é a cara dos filmes dele e talvez a figura mais surreal de todo o universo paralelo que ronda a pequena cidade de "Veludo Azul".
Mas uma coisa é certa, se tivessem esquecido do Coringa (rsrsrsrs)

Tais Bichara disse...

ai gente. o hal não é vilão. é tenebroso, mas vilão? sei lá.

e se tivessesm "esquecido" do coringa seria totalmente capenga essa lista. é incontestável, se é que isso existe.

trarei alguns desses vilões pra dentro de casa em breve. boa lista!

Anônimo disse...
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Lucas Caires disse...

Muito bem escrito o texto. Resumiu perfeitamente as "qualidades" de cada vilão. Mas ainda acho que Anton Chigurh de "onde os fracos não têm vez" deveria entrar no top 11. Ou então não seria o caso de substituir Frank Boot por ele?

Eduardo disse...

Lucas, eu queria colocar o Anton Chigurh no top 10, mas fui vencido na votação...hehehehe

Alexandre Rios disse...

Se for pra substituir alguém, voto no superestimado Jack Torrance!